sábado, 3 de setembro de 2011

Expressões curiosas

À GRANDE E À FRANCESA - viver com luxo e ostentação.
Facto relativo aos modos luxuosos do general Jean Andoche Junot, auxiliar de Napoleão que chegou a Portugal na primeira invasão francesa e dos seus acompanhantes que se passeavam com pompa e circunstância.












AO DEUS DARÁ - a expressão surgiu a partir da práctica de pedir esmola.

Pedir esmola não é uma actividade moderna. As maneiras que as pessoas usam para se livrar dos pedintes é que se multiplicaram. Uma delas, comum antigamente, servia como espécie de consolo: Deus dará. A expressão passou a referir-se às pessoas abandonadas à própria sorte, que vivem à toa, sem esperança - ao Deus dará.












ANDAR À TOA - andar sem destino, despreocupado, passando o tempo.
Toa é a corda com uma embarcação reboca a outra. Um navio que está à "toa" é o que não tem leme nem rumo, indo para onde o navio que o reboca determinar.
























ANDAR COM O CREDO NA BOCA - sentir medo de correr perigo.

Expressão ligada ao sofrimento do povo judeu aquando da inquisição. Na altura muitos judeus fizeram-se passar por cristãos, decorando a oração mais importante de então - o "Credo", debitando-a à frente dos carrascos e assim, vários conseguiram escapar à fogueira.







ANDAR EM FILA INDIANA - Enfiada de pessoas dispostas uma atrás da outra. 

Forma de caminha dos índios da América que, deste modo, tapavam as pegadas dos que iam na frente.
















BICHO DE SETE CABEÇAS - grande dificuldade, por regra, imaginária.
Na história da Hidra de Lerna, da mitologia grega, Hidra era um monstro de sete cabeças que, ao serem cortadas, renasciam. Matar este animal foi uma das proezas realizadas por Hércules.
A expressão ficou conhecida por representar a atitude exagerada de alguém que, perante uma dificuldade, coloca limites à realização da tarefa.




CAI O CARMO E A TRINDADE - desgraça, aparato, surpresa, confusão.
Durante o terramoto de 1755, em Lisboa, ouviu-se um grande estrondo por toda a cidade. Quando os habitantes descobriram qual tinha sido a cusa de tal ruído, logo disseram: "Caiu o Carmo e a Trindade!" Isto é desabaram os Conventos do Carmo e da Trindade.















COMER O PÃO QUE O DIABO AMASSOU - ter uma vida cheia de penas, vivida com muito sofrimento e privações.
As raízes desta expressão, estão na seguinte "lenda":
Jesus estava caminhando no deserto, quando, de repente, o diabo apareceu e disse-lhe:
- Se tu és o filho de Deus, transforma esta pedra em pão!
Jesus disse, então:
- Nem só de pão vive o home .
Mas, satanás ficou com tanto ódio, que argumentou:
- Se tu não queres transformar a pedra em pão, eu quero!
Assim, o diabo transformou a rocha em pão, saltitou em cima dele, e disse: 
- Quem comer deste pão, vai ter muito azar na vida, pois comerá o pão que eu amassei.


DAR / RECEBER LUVAS - subornar ou aceitar suborno. 
A expressão tem mais de quinhentos anos e surgiu em Espanha, em pleno império dos Habsburgos. Na época das luvas perfumadas, símbolo de estatuto social elevado, davam-se ofertas em dinheiro a troco de favores para poder comprar luvas.
















DENTADA DE CÃO, CURA-SE COM PÊLO DO MESMO CÃO - conselho em que se propõe o uso como remédio / cura do mesmo agente / inimigo que provocou o mal. 
Tradução da expressão inglesa "You may cure the dog's bite with its fur". Originalmente referia-se ao método de tratamento da raiva, que preconizava a cura da mordidela do cão se curava colocando o pêlo do cão que mordeu sobre a ferida.




É PIOR A EMENDA QUE O SONETO - o conserto / arranjo ficou pior que o original.
Querendo uma avaliação, certo candidato a escritor apresentou um soneto ao poeta português Bocage, pedindo-lhe que marcasse com uma cruz os erros encontrados. O escritor leu tudo, mas não marcou cruz nenhuma, alegando que elas seriam tantas, que a emenda ficaria ainda pior do que o poema original.










É DE SE TIRAR O CHAPÉU - é muito bom.
Foi com o rei Luís XVI, que a França disciplinou as saudações com o chapéu. Os cumprimentos poderiam ser feitos de várias maneiras, dependendo da importância social de quem era saudado. O rei ordenava que o chapéu só fosse tirado em ocasiões especiais. Assim, os portugueses que trouxeram a novidade, viviam perguntando se a ocasião era "de tirar o chapéu".














ENFIAR A CARAPUÇA - sentir-se ofendido ou identificado com alguma situação delicada.
Por altura da Inquisição, durante a Idade Média, os judeus eram obrigados a usar um chapéu bicudo para que pudessem ser distinguidos dos cristãos.












ERRO CRASSO - erro grosseiro.
Crasso, um general da Roma antiga foi incumbido de atacar o pequeno povo de Partos. Confiante na vitória, resolveu abandonar todas as técnicas de guerra romanas e simplesmente atacar. Oa Partos, em menor número conseguiram vencer os romanos. Desde então, sempre que alguém tem tudo para acertar, mas comete um erro grosseiro, diz-se tratar-se de um "erro crasso".

















ESTAR NAS SUAS SETE QUINTAS - estar contente, sentir-se satisfeito e realizado.
Diz uma lenda antiga que os reis portugueses possuíam, no concelho do Seixal, sete quintas onde passavam vários fins de semana. Quando estavam nas suas sete quintas, estavam felizes.












FECHAR COM A CHAVE DE OURO - remate feliz.
Esta expressão está relacionada às obras literárias, principalmente aos sonetos. Chave d'ouro, para o sonetista, é o último verso de um soneto, que dá sentido a todo o resto do poema.


















FEITO EM CIMA DO JOELHO - trabalho com pouca qualidade, feito à pressa.
Os romanos empregavam escravos que faziam telhas usando como molde a própria coxa. conforme o tamanho da coxa de cada um, as telhas eram maiores ou mais pequenas. Nasceu assim a expressão para designar um trabalho que não prima pela regularidade.




FICAR A VER NAVIOS (do alto do miradouro de Santa Catarina) - esperar qualquer coisa que afinal não se concretiza.
A expressão, de uso corrente, significa a frustração de expectativas e ficou associada à chegada tardia do general francês Junot a Lisboa, em Novembro de 1807, durante as invasões francesas. Diz a lenda que, do alto do miradouro de Santa Catarina, o general ficou a ver, impotente, a esquadra que transportava a Corte Portuguesa sulcando o Tejo.










HÁ, MAS SÃO VERDES - exclamação referente àquilo que uma pessoa cobiça, mas de que desdenha por estar fora do seu alcance.
A expressão corresponde a uma das fábulas de La Fontaine, adaptada por Bocage: "Contam que certa raposa, / andando muito esfaimada, / viu roxos, maduros cachos / pendentes da alta latada. / De bom grado os trincaria, / mas sem lhes poder chegar, / disse: 'Estão verdes, não prestam, só cães os podem tragar'!"










LÁGRIMAS DE CROCODILO - choro fingido.
O crocodilo quando ingere um alimento, faz forte pressão contra o céu da boca, comprimindo as glândulas lacrimais. Assim, enquanto devora a vítima, ele chora um choro fingido.














LEVAR ÁGUA NO BICO - ter intenções ou propósitos ocultos.
Na linguagem dos marinheiros, "navegar com água no bico" significava remar contra a corrente levando água do mar na proa, o que tornava o mar traiçoeiro. A expressão foi adaptada e tornou-se naquela que conhecemos hoje.
















NEGÓCIO DA CHINA - grande oportunidade de negócio fácil e lucrativo para uma das partes.
No século XIX, a Inglaterra dominou o comércio do ópio na China. Após a Guerra do Ópio, os colonos ingleses ganharam a concessão de Hong Kong. Tinham assim, no território chinês  uma ponta de lança permanente do império britânico. Com a revolução chinesa o "negócio da China" passou a designar toda e qualquer relação proveitosa apenas para uma das partes.





ONDE JUDAS PERDEU AS BOTAS - longe, distante, inacessível.
Depois de trair Jesus e receber 30 dinheiros, Judas enforcou-se numa árvore. Estava descalço. Por isso, os soldados foram à procura das suas botas, onde, provavelmente, estaria o dinheiro. Não se sabe se acharam ou não as botas e o dinheiro, mas a expressou atravessou vinte séculos.







OLHA O PASSARINHO - chamar a atenção.
No século XIX, levava-se muito tempo para tirar uma fotografia. As crianças, em especial, inquietavam-se com o demorado disparo. Como solução, muitos fotógrafos colocavam gaiolas com pássaros em frente aos retratados. No momento exacto, todos olhavam o passarinho e a câmara captava a situação.







PASSAR A MÃO PELA CABEÇA - perdoar ou acobertar um erro cometido por algum protegido.
Costume judaico de abençoar os cristãos-novos, passando a mão pela cabeça e descendo pela face, enquanto se pronunciava a benção.















PIOR CEGO É AQUELE QUE NÃO QUER VER - aquele que se nega a ver a verdade.
Em 1647, o Dr. Vincent P. D'Argent fez o 1º transplante de córnea, que foi um sucesso da medicina na época, menos para o paciente, que assim que ficou a ver, ficou de tal modo horrorizado com aquilo que via, que pediu ao cirurgião que lhe arrancasse os olhos. No tribunal ganhou a causa, e entrou para a história como o cego que não quis ver.




PÔR AS MÃOS NO FOGO - jurar pela inocência de alguém, depositar inteira confiança em alguém.
A expressão tem origem na prova do fogo, durante a Idade Média, para se saber se o acusado dizia ou não a verdade. Quem alegava inocência, submetia-se a segurar uma barra de ferro em brasa e a caminhar com ela na mão. Existia a crença de que, se fosse inocente, Deus curaria as queimaduras em três dias.



QUE MAÇADA! - exclamação usada para referir um contra-tempo ou uma tragédia.
É uma alusão à fortaleza de Masada, na região do Mar Morto, Israel, reduto da tribo dos Zelotas, onde permaneceram, durante vários anos, resisitindo às forças romanas, após a destruição do Templo (Jerusalém) em 70 d.C., culminando com um suicídio colectivo para não se renderem.





RESVÉS CAMPO DE OURIQUE -  por um triz, à justa.
No dis 1 de Novembro de 1755 (dia de Todos os Santos) abateu-se sobre Portugal um terramoto de elevada magnitude e de um tsunami que atingiu, particularmente, a cidade de Lisboa, destruindo tudo e matando milhares de pessoas. A sua força foi de tal ordem a destruição chegou bem perto de Campo de Ourique.





SANTINHO DE PAU OCO - pessoa que se faz de boazinha, mas na realidade não o é.
Nos séculos XVIII e XIX os contrabandistas de ouro em pó, moedas e pedras preciosas utilizavam estátuas de santos ocas por dentro. O santo era "recheado" com preciosidades roubadas do Brasil para Portugal.

















SEM DIZER ÁGUA VAI - sem aviso prévio, inesperadamente.
Quando ainda não havia rede de esgotos nos aglomerados populacionais, os moradores lançavam a água usada e os dejectos pelas janelas, usando sempre o indispensável grito de alerta: "Água vai!...", logo é compreensível a intolerância perante quem costumava lançar os seus dejectos sem avisar.




SEM EIRA NEM BEIRA - pessoa(s) sem bens, sem posse.
No Brasil colonial, as casas possuíam um telhado formado por três linhas de telhas sobrepostas com detalhes, chamadas de eira, beira e entre beira, que serviam não só como adorno, mas também para distinguir as diferentes classes sociais. Assim, uma casa que não tivesse eira nem beira, reflectia a condição humilde do seu dono.

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