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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
Conto de encantar
A Mariema tem 6 anos e vive muito longe de
mim, com terras e águas e florestas e países a separarem-nos. Mora num país
pequeno, que para a Mariema se resume a uma tabanca de palha, a um tapete de
ráfia, a muito pó, muitos percursos de terra batida, árvores de troncos finos e
grossos, animais que sorriem e outros que se zangam, cheiros de vários sabores,
pedrinhas, mangas, mandioca, um mar lindo de imenso, que é tanto, e meninos e
meninas descalços com cabelos desgrenhados. A mãe trabalha muito, vai para o campo
quando ainda não se fez dia e vem do campo quando já é noite. O pai tem uma
cara imaginada pela Mariema.
Ela salta e pula e suja todos os dias mais
um bocadinho o seu vestido azul bebé que está roto e que lhe dá pelos pés. Veio
de outra menina, de um outro país que ela imagina ser grande mas não sabe o que
mais lá dentro deve ter. Mariema queria vestir uma roupa igual à de algumas
meninas que vê passar, com um caderno debaixo do braço a caminho do saber. Quer
ser como elas e aprender a dar as mãos às letras. Chegou à idade de ir para a
escola, mas ainda ninguém se importou. Gostava de vestir a farda para ser
importante e ser importante para a Mariema é ser igual às outras meninas.
Já percebeu que existe um senhor mais
velho com quem, daqui a uns tempos, não muitos, irá ficar. Disseram-lhe que era
para tomar conta dela mas ouviu falar de casamento e só não sabe se as duas
coisas querem dizer o mesmo. Não quer partir com esse senhor de barbas brancas,
com costas curvadas e um cajado para não se sabe onde, mas também não quer
fugir antes que isso aconteça, porque lhe custa muito deixar a sua tabanca, o
seu bocado de terra, que fica sempre enorme de cada vez que inventa histórias e
passeia ao colo, a sua boneca Ary. A espreitar do seu vestido azul bebé, apenas
se vê um molho de fios castanhos, restos de plantas, que fazem de conta ser os
cabelos da Ary. O corpo, não existe, mas também não faz mal, porque a Mariema
sabe com são, tal e qual, as pernas, os braços e até a cara expressiva da sua
boneca. Ah! E o vestido da Ary é cor-de-rosa e dá-lhe pelos joelhos.
Há pouco tempo e durante uns dias, Mariema
teve uma forte dor de cabeça, diarreia, febre e ouvia vozes. Nessa altura, viu
uma luz tão clarinha que pensou que iria voar. Mas não, afinal, uns senhores
grandes chegaram à sua tabanca e levaram-na. Fizeram-lhe uma magia qualquer
que, no momento em que se preparava para levantar voo, o rosto da sua mãe
apareceu-lhe à frente, muito nítido, a sorrir. Estas dores já as tinha sentido
antes, duas vezes. Uma senhora velhinha, sábia, que mora na tabanca do lado, e
que costuma fazer fogueiras e entoar cânticos estranhos enquanto chora e ri,
contou-lhe, um dia, que essas febres com dores de cabeça e de barriga, eram por
culpa dos mosquitos e de outras coisas complicadas para gente crescida que
agora não lhe podia explicar. Alguns meninos têm umas redes à volta do local
onde dormem para se protegerem, mas essas redes não chegam a todos. "E
chegarão para todos?", perguntou-se Mariema, para dentro de si.
Aliás, falar para dentro de si, é um dos
seus passatempos preferidos e fica tão distraída que nem repara quando o sol e
a lua trocam de lugar, sem amuarem. Conversa consigo sobre o seu pequeno mundo,
muito colorido com as cores das machambas, das frutas, dos vegetais, das
especiarias que a mãe usa nos cozinhados que faz à entrada da tabanca, com
pauzinhos e lume. Conversa sobre o seu maior segredo que não conta a ninguém,
nem mesmo às suas amigas com quem vai apanhar sementes e com quem se perde, de
propósito, para sentirem um medo pequenino dentro das barrigas. Perdem-se e
voltam a encontrar-se, regressando a casa pelo rasto do caminho que desenharam
com uma ripa, na terra, levantando a poeira que cobre os seus pés descalços. Já
pensou várias vezes em partilhar o seu segredo com a Rimaly ou a Nonô, mas
prefere só contar, por enquanto (enquanto o tempo de criança durar), à sua
amiga de colo, a Ary. Ela sabe todos os seus segredos, mesmo o gigante que
existe desde que se lembra e lembra-se desde que passou a existir. Foi um dia
muito especial, o dia em que o segredo gigante entrou na sua pequena vida.
Mariema tem medo de que, ao partilhá-lo com as outras pessoas, grandes e
pequenas, ele possa fugir-lhe e nunca mais o voltar a ver.
Tem medo de poucas coisas. Que se lembre
com força, tem medo de quatro: que o segredo gigante fuja; que a noite escura
traga algum desses homens feios que fazem coisas ainda mais feias, detestáveis,
às crianças e mulheres; tem medo de voltar a sentir aquela dor vivida durante o
tal ritual que parece normal para todos à sua volta e que dizem existir para o
bem de todas as meninas, mas cuja dor foi tão insuportável, que todos os dias é
como se a sentisse outra vez, durante uns breves momentos. E tem ainda medo de
nunca chegar a aprender a dançar com os números e as letras, e que, por isso,
quando for grande, não consiga curar todos os meninos e meninas das dores que
os mosquitos provocam (os mosquitos e as outras coisas estranhas de que falava
a velhinha sábia ...).
Guarda-o, então, só para si e espera não
ser como aquelas pessoas que falam enquanto dormem, porque, como partilha o
mesmo tapete de ráfia com a mãe, ela poderá ouvir e contar à aldeia, ao país,
ao mundo. E, depois, o que será de Mariema sem o seu segredo gigante?
Só que o dia mais esperado de todos chegou
finalmente, o dia em que, muito cedo, de manhãzinha, um grupo de homens e
mulheres com ar simpático se aproximou das tabancas ali à volta. Estavam à
procura de crianças com idade de irem para a escola. Mariema ouviu a palavra
poderosa, que a faz suspirar e saiu a correr do seu cantinho. Disse que sim e
que já não era sem tempo! Precisava com urgência de ir para a escola e ser
igual a tantas outras meninas e meninos que falam línguas diferentes mas que já
podem mostrar, sem receios, os seus segredos gigantes. Era o que Mariema mais
queria.
Decide falar para dentro de si e para a
sua boneca Ary, (porque só assim é mas fácil controlar o medo):
"Deverei eu agora contar o meu
segredo?"
Seguiram-se segundos de silêncio muito
prolongados, com o coração a bater a grande velocidade como aquela a que
circulava o vento que levantava as folhas do chão e que, normalmente, não se
fazia sentir assim.
O silêncio foi interrompido abruptamente,
porque de forma atabalhoada, as palavras ganharam uma vida só delas, e livres,
agruparam-se, saindo da boca da Mariema e fazendo a seguinte revelação: "O
meu segredo gigante chama-se Livro, tenho-o desde sempre, porque o sempre é
muito e nunca deixei que ninguém o visse. Está escondido debaixo da terra e eu
não sei o que lá diz, mas sei que me faz acreditar que quando o conseguir ler,
irei voar."
Depois disto, passou-se uma vida inteira.
A Mariema estudou e estuda ainda, todos os
dias um bocadinho. Anda pelo mundo, a tentar garantir que as crianças de todas
as cores possam sentar-se nos bancos de escola de todos os géneros e feitios.
Catarina Furtado, Revista VISÃO, 20/12/2012
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
Cavalo à solta
CAVALO À SOLTA
Minha laranja amarga e doce
meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve
breve instante da loucura.
breve instante da loucura.
Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa.
Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo.
Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr
contra a ternura.
Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo corpo alma
amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do
meu trigo.
Minha ousadia
minha aventura
minha coragem de correr
contra a ternura.
Letra: José Carlos Ary dos Santos
Música: Fernando Tordo
In, Festival da Canção RTP 1971
sábado, 22 de dezembro de 2012
Poesia...
Me gustas cuando callas porque estás como ausente,
y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
y parece que un beso te cerrara la boca. PABLO NERUDA
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
NATAL é quando um homem quiser...
Tu que dormes à noite na calçada de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão
E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão
Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher
Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e comboios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão
E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão
Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher
Letra: Ary dos Santos
Música: Fernando Tordo
Interpretação: Paulo de Carvalho
domingo, 9 de dezembro de 2012
Poema em construção
PARA ESCREVER O POEMA
O poeta quer escrever sobre um pássaro:
e o pássaro foge-lhe do verso.
O poeta quer escrever sobre a maçã:
e a maçã cai-lhe do ramo onde a pousou.
O poeta quer escrever sobre uma flor:
e a flor murcha no jarro da estrofe.
Então, o poeta faz uma gaiola de palavras
para o pássaro não fugir.
Então, o poeta chama pela serpente
para que ela convença Eva a morder a maçã.
Então, o poeta põe água na estrofe
para que a flor não murche.
Mas um pássaro não canta
quando o fecham na gaiola.
A serpente não sai da terra
porque Eva tem medo de serpentes.
E a água que devia manter viva a flor
escorre por entre os versos.
E quando o poeta pousou a caneta,
o pássaro começou a voar,
Eva correu por entre as macieiras
e todas as flores nasceram da terra.
O poeta voltou a pegar na caneta,
escreveu o que tinha visto,
e o poema ficou feito.
Mia Couto
domingo, 18 de novembro de 2012
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
PROFESSOR - vocação, partilha e entrega
5 de outubro
DIA Internacional do PROFESSOR
Parabéns a todos os professores e obrigado pelos seus ensinamentos!!!
Curiosa a similitude com a celebração da implantação da república em Portugal!!!
domingo, 2 de setembro de 2012
quarta-feira, 11 de julho de 2012
terça-feira, 10 de julho de 2012
terça-feira, 19 de junho de 2012
domingo, 27 de maio de 2012
segunda-feira, 9 de abril de 2012
"Morre lentamente" - Pablo Neruda
quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajectos,
quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece. Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções, justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando esta infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente, quem abandona um projecto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples facto de respirar.
Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples facto de respirar.
Somente a perseverança fará com que conquistemos um estagio esplêndido de felicidade.
Pablo Neruda
quarta-feira, 21 de março de 2012
Sandro Botticelli - "A alegoria da primavera"
A ALEGORIA da PRIMAVERA, pintada por Sandro Botticelli cerca de 1482, é uma das mais populares da arte ocidental e também uma das mais controversas. Enquanto que muitos críticos e estudiosos são consensuais no que diz respeito à ideia de que se trata de uma alegoria à abundância e fecundidade primaveris, outros afirmam tratar-se de uma ilustração do ideal de amor neoplatónico que contém elementos que remetem para Ovídio e Lucrécio; poderá, também, ter sido inspirada por um poema de Poliziano.
Pensa-se – sem certezas – que a pintura foi encomendada por alguém da família Medici. (A figura de Mercúrio terá tido como modelo Lorenzo di Medici ou o seu primo Giuliano di Medici) A pintura ncontra-se, desde 1919, na Galeria dos Uffizi, em Florença.
Uma possível leitura, da direita para a esquerda: Zéfiro, o vento que sopra em Março, rapta e possui a ninfa Clóris com quem se casa mais tarde, transformando-a numa deusa. Vénus preside ao encontro no jardim das laranjeiras, o símbolo da casa Medici, acompanhada das três Graças (e ao alcance da seta de Cupido) e com as jóias dos Medici, enquanto o caduceu de Mercúrio protege o Jardim. A figura masculina poderá ser Mercúrio ou Marte. A jovem de vestido florido é a Primavera acompanhada de Flora de cuja boca saem flores ao tomar contacto com a brisa. Foram já identificadas cerca de 500 espécies diferentes de plantas e 190 flores. As leituras que se têm feito da pintura são intermináveis.
Helena Vasconcelos, Facebook (adaptado)
segunda-feira, 12 de março de 2012
"VIDA MINHA" - Filipa Sousa
48º Festival RTP da Canção - 10/03/2012
Canção vencedora, que vai representar Portugal no Festival da Eurovisão, que se realiza em Baku, no Azerbeijão, em 22, 24 e 26 de maio de 2012.
Sigo as ruas da cidade
Velhas, porém perfeitas
Cheira a beijos de saudade
De uma praça que se enfeita
Há uma criança que corre
Uma vizinha que espreita
E em mim só segue o desejo
De chegar para te abraçar
E em mim só segue o desejo
De chegar para te abraçar
Se fosses luz amor
A luz do dia
Sorriso inspirador
De fantasia
Se fosses água amor
Qual água pura
Que mata a sede à flor
Da ternura
Se fosses luz amor
A luz do dia
Sorriso inspirador
De fantasia
Mas entre tudo o que possas ser na vida
Só quero meu amor que sejas vida minha
E em mim só segue o desejo
De chegar para te abraçar
Se fosses luz amor
A luz do dia
Sorriso inspirador
De fantasia
Se fosses água amor
Qual água pura
Que mata a sede à flor
Da ternura
Mas entre tudo o que possas ser na vida
Só quero meu amor que sejas vida minha
Letra: Carlos Coelho
Música: Andrej Babic
sábado, 31 de dezembro de 2011
André Sardet - "Roubo-te um beijo"
Eu hei de de ir à tua casa
Para me dizeres como é
E beber do teu amor
numa chávena de café
Vou rodar a tua saia
Ao dançarmos na varanda
Vou mostrar à vizinhança
Que não morre a minha esperança
Ah... Roubo-te um beijo
Depois de roubado é meu
Faço uma cena como vi lá no cinema
Nesse dia se tiver um beijo teu
Eu hei de ir à tua casa
E dizer tudo o que sinto
Vou dizer toda verdade
Desta vez juro não minto
Segredar no teu ouvido
O que tenho pra te dar
Envolver-te num abraço
Ver o dia madrugar
Ah... Roubo-te um beijo
Depois de roubado é meu
Faço uma cena como vi lá no cinema
Nesse dia se tiver um beijo teu
Todo o beijo que é roubado
Tem 1000 anos de perdão
Mas só se for guardado junto ao coração
Ah... Roubo-te um beijo
Depois de roubado é meu
Faço uma cena como vi lá no cinema
Nesse dia se tiver um beijo teu
Per7ume - "Intervalo"
Vida em câmara lenta,
Oito ou oitenta,
Sinto que vou emergir,
Já sei de cor todas as canções de amor,
Para à conquista partir.
Diz que tenho sal,
Não me deixes mal,
Não me deixes…
No livro que eu não li,
No filme que eu não vi,
Na foto onde eu não entrei,
Notícia do jornal
O quadro minimal… Sou eu…
Vida à média rés,
Levanta os pés
Não vás em futebois, apesar…
Do intervalo, que é quando eu falo,
Para não me incomodar.
Diz que tenho sal,
Não me deixes mal,
Não me deixes…
No livro que eu não li,
No filme que eu não vi,
Na foto onde eu não entrei,
Notícia do jornal
O quadro minimal… Sou eu…
Não me deixes já
A história que não terminou
Não me deixes…
No livro que eu não li,
No filme que eu não vi,
Na foto onde eu não entrei,
Notícia do jornal
O quadro minimal… Sou eu…
No livro que eu não li,
No filme que eu não vi,
Na foto onde eu não entrei,
Noticia do jornal
O quadro minimal… Sou eu…
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