sábado, 29 de dezembro de 2012

Gente fina é outra coisa...



Conversa de "tias":
Tia1:Hoje o meu almoço foi camarão envolvido em molho bechamel, com pequenos apontamentos de salsa australiana, em cama de massa crocante, confitada com pão ralado e banhada em óleo vegetal...
Tia2: Ah... Rissóis!!!

Portugal vs Espanha - a eterna "luta"...


Dois agricultores, um português (alentejano) e um espanhol (andaluz), conversam:
– Qual é o tamanho da sua herdade? – pergunta o espanhol.
Responde o português:
– Para os padrões portugueses, o meu monte tem um tamanho razoável. Trezentos hectares, e a sua propriedade?
Responde o espanhol:
– Olha, eu saio de casa de manhã, ligo o meu jipe e, ao meio-dia, ainda nem percorri metade.
– Olhe compadre, eu sei o que isso é! – diz o português sem se atrapalhar. Eu também já tive um jipe espanhol; são uma porcaria. Só dão chatices!!!

N. Sra. do Carmo

Pedimos 
A uma voz
Nossa Senhora
Rogai por Nós

REFRÃO
Nossa Senhora do Carmo
Que está no seu altar
Todos lá vamos ajoelhar
E cantar, e cantar
Vamos rezar

Senhora
Que és padroeira

Da nossa terra
Hospitaleira

Há festa
Na nossa terra
Bem modesta
Mas boa festa


(Cântico alentejano a N. S. do Carmo, padroeira de Moura)

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Igualdade de oportunidades

Palavras para que...

Cavalo à solta



CAVALO À SOLTA

Minha laranja amarga e doce
meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve
breve instante da loucura.

Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa.

Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo.

Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.

Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo corpo alma amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo.

Minha ousadia
minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura.
Letra: José Carlos Ary dos Santos
Música: Fernando Tordo
In, Festival da Canção RTP 1971

sábado, 22 de dezembro de 2012

Poesia...


Me gustas cuando callas porque estás como ausente, 
y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca. 
Parece que los ojos se te hubieran volado 
y parece que un beso te cerrara la boca. 
PABLO NERUDA

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

NATAL é quando um homem quiser...



Tu que dormes à noite na calçada de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e comboios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher


Letra: Ary dos Santos
Música: Fernando Tordo
Interpretação: Paulo de Carvalho 

domingo, 16 de dezembro de 2012

O TREMA


Despedida do TREMA
Vou-me embora. Já não há lugar para mim. Eu sou o Trema. Você pode nunca ter reparado em mim, mas eu estava sempre lá, na Anhangüera, nos aqüíferos, nas lingüiças e nos seus trocadilhos por mais de quatrocentos e cinqüenta anos.
Mas os tempos mudaram. Inventaram uma tal de reforma ortográfica e eu simplesmente estou fora. Fui expulso para sempre do dicionário. Seus ingratos! Isto é uma delinqüência de lingüistas grandiloqüentes!...
O resto dos pontos e o alfabeto não me deram o menor apoio... A letra U disse-se aliviada porque vou finalmente sair de cima dela. O "dois pontos" disse que sou um preguiçoso que trabalha deitado, enquanto ele fica em pé.
Até o cedilha foi a favor da minha expulsão; aquele C cagão que fica passando-se por S e nunca tem coragem de iniciar uma palavra.
E também há o obeso do O e o anorético do I. Desesperado, tentei chamar o Ponto Final pra trabalharmos juntos, fazendo um bico de reticências, mas ele negou, encerrando logo todas as discussões.
Será que se deixar um topete moicano posso me passar por aspas?... A verdade é que estou fora de moda. Quem está na moda são os estrangeiros, é o K e o W, "Kkk" para cá, "www" para lá.
Até o Jogo das Damas, a quem nunca ninguém ligou, passou a ser celebridade no Twitter, que aliás, deveria chamar-se TÜITER.
Chega de argüição, mas estejam certos, seus moderninhos: haverá conseqüências! Chega de piadinhas dizendo que estou "tremendo" de medo. Tudo bem, vou-me embora da língua portuguesa. Foi bom enquanto durou. Vou para o alemão, pois eles adoram os tremas. E um dia vocês sentirão saudades. E não vão agüentar!...
Nós nos veremos nos livros antigos. Saio da língua para entrar na história.
Adeus,
Trema.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Poema em construção


PARA ESCREVER O POEMA

O poeta quer escrever sobre um pássaro: 
e o pássaro foge-lhe do verso.
O poeta quer escrever sobre a maçã:
e a maçã cai-lhe do ramo onde a pousou. 
O poeta quer escrever sobre uma flor: 
e a flor murcha no jarro da estrofe. 
Então, o poeta faz uma gaiola de palavras 
para o pássaro não fugir. 
Então, o poeta chama pela serpente 
para que ela convença Eva a morder a maçã. 
Então, o poeta põe água na estrofe 
para que a flor não murche. 
Mas um pássaro não canta 
quando o fecham na gaiola. 
A serpente não sai da terra 
porque Eva tem medo de serpentes. 
E a água que devia manter viva a flor 
escorre por entre os versos. 
E quando o poeta pousou a caneta, 
o pássaro começou a voar, 
Eva correu por entre as macieiras 
e todas as flores nasceram da terra. 
O poeta voltou a pegar na caneta, 
escreveu o que tinha visto, 
e o poema ficou feito. 
Mia Couto

domingo, 2 de dezembro de 2012


MENSAGEM A MEIO DA NOITE 
Lídia Jorge

Queridos amigos, tanto que eu queria não vos desiludir, cumprindo a tempo e horas o que vos prometi com solenidade, mas infelizmente irei continuar em falta, e desta vez a culpa traz dupla assinatura pois não é só minha, ainda que não conheça a quem imputá-la. Confuso? Compreenderão se vos disser que ao regressar a Lisboa encontrei a casa assaltada.
Sim, meus amigos, a porta estava entreaberta, como se um estranho outro dono nos esperasse, e a fechadura não havia sido violada. Como explicar? Uma pessoa entra pela casa adiante, com a consciência perfeita do momento, o domínio sobre os maxilares, perfeito, e os músculos dos joelhos, intactos. O coração nem bate um pouco mais, prossegue o seu caminho, tiquetaque, tiquetaque, relógio orgânico habituado a muita coisa, e aí vai ele, inalterado. O coração fala consigo mesmo — Ficou o computador? Ficou. Ficaram as fotografias? Ficaram. Ficou o frigorífico velho? Sim. O passa-discos, também ficou? Que bom. E também ficou o televisor. E ficou o coelhinho de chocolate que me inspirou um conto, há dois anos. E a caneta de rosca, e as rosas de sarapilheira, e o caderno encarnado. Então uma pessoa olha para o caos instalado, a dança dos objetos que andaram de um lado para outro, cruzando-se no espaço, e sente uma espécie de anestesia. Não dá para pensar, só dá para ver. Pois no rebuliço, os pechisbeques voaram para cima da cama, os recibos das finanças foram parar nos portais, as cartas dos amigos ficaram debaixo dos óculos velhos, alguns deles saíram das caixas, e na confusão, de repente, a pessoa descobre que os aros estavam mais do que ultrapassados. Há quanto tempo estariam os óculos guardados no fundo da gaveta agora vazia? Aliás, todas as gavetas estão completamente vazias, e o chão está completamente juncado. Onde colocar os pés? O que estará debaixo do monte das informações bancárias, umas vinte, que parecem ter-se multiplicado por mil? E as moedas canadianas, e os reais desprezados? Que curioso é o bater do nosso coração. Tiquetaque, tiquetaque, sem alteração alguma.
Pois por que não? Há revelações estranhas nesta desarrumação dos objetos. Umas velas que não apareciam há vinte anos ocupam lugar preponderante por cima de cintos e meias. Cuecas velhas que uma pessoa guardou só porque tinham uma ponta de renda, estão largadas sobre o busto esverdeado do Bach. Uma almofada em forma de lagarta cobre uma caixa de vidro de onde terá saído alguma coisa que foi parar dentro de sapatos. Cartas, tesouras, sapatos. E de repente, a vida vem ao nosso encontro e fala do tempo que passa, e da irrelevância dos objetos guardados, como se eles apenas servissem para nos dar recados de que não há recados. Mas neste ponto, meus amigos, eu faço uma pausa.
Pois será que não haverá mesmo recados? Então o que sentirá uma pessoa que se infiltra na casa dos outros para procurar o que não lhe pertence? Será um método de vida? Uma tática de dever? Um exercício de frieza? Um exercício de perversidade? Um dia, o Baptista-Bastos, na boa tradição romântica, chamou ao ladrão de "Senhor Ladrão", e deu-lhe uns conselhos calmos. Pois também eu, ao regressar a casa e ao sentir que o ladrão deixou aqueles objetos que verdadeiramente mais amo no seu exato lugar, fui assaltada por um sentimento semelhante, uma gratidão inexplicável por esse ladrão que só queria ouro e dinheiro, precisamente o que as pessoas da minha igualha não têm mais em casa, porque não têm em lugar nenhum. E como uma romântica, que a seu tempo leu Os Miseráveis, comecei a pensar no Estado.
Inveterada, imaginei que não foi pessoa quem me assaltou a casa. Imaginei que foi o Estado quem veio pela calada da noite, meteu a chave falsa, rodou-a, silenciosa, o Estado empurrou a porta, o Estado pensou que havia uma fortuna nos lugares onde os cidadãos comuns costumam esconder as fortunas, o Estado enervou-se por só encontrar clips, cotão, recortes de jornais, morraça, e foi-se enfurecendo, foi atirando para o chão tudo o que encontrava na frente, na esperança de que a fortuna do cidadão de súbito saltasse do interior das páginas de um livro. Que ironia. O Estado a procurar ouro e divisas dentro das páginas de um livro. Que ridículo. O Estado cansou-se. O Estado ainda pensou derrubar o candeeiro, mas depois sentiu que havia visitado um cidadão insignificante, e achou que apenas perdera o seu tempo. O Estado sabe o que faz. O Estado abalou a procurar a sua sorte numa casa mais rica. Não falo só no meu Estado, falo também do Estado do visitante. Quando cheguei a este ponto, de súbito o tiquetaque desorganizou-se, os joelhos deram de si, e felizmente que havia um Magnum Clássico no congelador. Ele permitiu, meus amigos, que eu abrisse este computador e vos explicasse por que razão, se acaso não me dispensarem, em face do exposto, de escrever um artigo para o vosso site, irei precisar de um tempo liberto desta presença dúbia que ainda permanece no interior da minha casa. De quem eu tenho pena, se for gente, por quem eu sinto raiva, se for Estado.
in, Blogue Casal das Letras (msg. a circular na "net")