segunda-feira, 30 de outubro de 2023

UMA GOTA DE MEL

(“Jogo teatral”, inspirado num conto da tradição oral da Arménia, redigido por Hovanés Tumanian, editado em francês, em 1938, pelo dramaturgo e pedagogo Léon Chancerel e traduzido para português pelo encenador, escritor e artista plástico António Pedro.)

 

–   Era uma vez...

–   Um bom merceeiro. (dar um passo em frente)

–   Era uma vez...

–   Um bom pastor. (dar um passo em frente)

–   É verdade que foi assim,

–   Foi assim que tudo começou,

–   Numa bela noite de verão.

–   Isto começou, porque numa noite, numa serena e clara noite de verão...

–   Um forte, alto, belo e bom pastor entrou –com o seu perdigueiro- na loja do merceeiro.

–   Senhor merceeiro, tem mel para vender? (dirigir-se ao merceeiro)

–   Mel excelente, meu bom pastor... bem medido e a preço razoável!

–   Falavam assim, fraternalmente, durante uma serena e clara noite de verão, o vendedor e o cliente.

–   O pastor e o merceeiro. (em tom esclarecedor)

–   Ora, enquanto o bom merceeiro pesava honestamente o mel...

–   O belo mel, cor de âmbar, que as louras irmãs abelhas extraíram das flores vermelhas... (em tom esclarecedor)

–   TIC, uma gota... (todos)

–   Uma gota de mel, cor de âmbar. (apontando para o chão)

–   No chão da loja. (em tom esclarecedor)

–   Uma gotazinha se entornou! (todos)

–   Sim, foi assim que tudo começou! Ora... (recuar para o lugar inicial)

–   ZZZzzzzzzz... (todos olham para o ar à procura da mosca)

–   Uma mosca! (em tom de descoberta)

–   Uma moxxxca! (em tom de descoberta, carregando na sibilante)

–   Veio pousar sobre a gota, a pequenina gota caída no chão.

–   O que entrava, naturalmente, na sua lógica de mosca! (em tom explicativo)

–   O gaaato! (olha para o lado e aponta)

–   Debaixo do armário. (em tom explicativo)

–   O gato gor-di-nho do bom merceeiro... (com ar apreciativo)

–   Já há muito que espreitava a mosca, o que entrava, naturalmente, na sua lógica de gato. (interrupção, em tom explicativo)

–   O gaaato! (chamando a atenção)

–   Miauuu! (todos)

–   O gaaato deu um salto para cima da mosca.

–   Miauuu / Fffff... Comeu-a! (todos)

–   O caããoo! (todos imitam o ladrar do cão)

–   O cãozarrão do pastor, assustado com o pulo do gato...

–   ... e julgando que era com ele, o que entrava, naturalmente, na sua lógica de cão... (interrompendo)

–   O cão... pu-lou!

–   Uãããuu! (todos)

–   E sem ser de propósito...

–   CCRRR / MIAAUUU!!! (todos)

–   O merceeiro agarra num pau...

–   Zás! Zás! Zás! (simular gesto de bater no cão)

–   Pobre do inocente cão do pastor!

–   Morto ao lado do gato! Ah, malvado não me escapas! (avançar ameaçadoramente)

–   O grande, forte e bom pastor vinga o seu fiel cão!

–   Foi precisamente assim, na loja do merceeiro, que as coisas surgiram primeiro...

–   ... em noite de verão fagueiro! (todos – agitação / discussão)

–   Assassino! (apontar)

–   Matador!

–   Prendam-no!

–   Matem-no! Matem-no! (todos)

–   Toda a cidade está amotinada. Toda a cidade está desnorteada. E os sinos a tocar, as sirenes a apitar, os bombeiros e os soldados a chegar... (gesticula isolando-se do grupo)

–   Defronte da loja, amotinada, a multidão está concentrada.

–   O crime foi premeditado.

–   O ataque foi preparado.

–   A montanha contra a planície.

–   Vingança! (em tom forte)

–   Honra ultrajada!

–   Mobilização proclamada. (em tom grave, para o público)

–   Há fogo nas aldeias. (em tom penoso)

–   Granadas nas pontes. (em tom penoso)

–   Jovens mutilados. (em tom penoso)

–   Árvores cortadas. (com pena)

–   Campos arrasados. (com pena)

–   Moças violadas. (com pena)

–   Reféns fu-zi-la-dos! E isto pode durar, para os corvos alimentar!

–   Doce mel das abelhas, fluido e açucarado...

–   Doces abelhas, quem o teria pensado?!? (PAUSA)

–   Os media pelo mundo, divulgam os comunicados. (em tom muito rápido)

–   Salvemos a civilização! Salvemos a civilização! (em tom muito rápido)

–   Quem quer tomar partido pelo direito? (energicamente) (PAUSA)

–   Pelo triunfo da justiça, troai canhões! (energicamente)

–   E sobre toda a humanidade, o manto vermelho da guerra, o cheiro empestado da guerra, o medo pairando entre os vivos, entre aqueles que escapam da guerra...

–   Porquê tudo isto? (em tom triste)

–   Porquê? (em tom de angustia)

–   Como é que chegamos a tanto?!? (em tom de revolta)

–   Como foi? (em tom triste)

–   Como foi que tudo iiiss-to começou? (em tom de revolta) (PAUSA)

–   Só havia um ofício! (em tom rápido) 

–   Só havia uma vocação! (idem)

–   A GUERRA!!! (PAUSA)

–   E a fo-me veio! (em tom pausado e bem silabado)

–   E com ela a peste! (em tom explicativo)

–   Já nem há tempo para enterrar os mortos, correm rios de sangue!

–   O fu-mo es-cu-re-ceu o céu! (em tom pausado e silabado)

–   Já não se sabe o que é uma árvore verde, uma ribeira azulada!

–   Tudo é vermelho e negro! (em tom pausado e bem silabado)

–   Espeeesso... e viscoooso! (mudando de tom) Tudo está reduzido a cinzas!

–   Sangue!

–   E laa-ma! (em tom rápido e silabado)

–   Gota de mel!!! (cada interveniente à vez e depois em uníssono) (PAUSA)

–   Mataram-se tantos e tantos, durante séculos, que um dia só ficaram, frente a frente, dois soldados. (dois intervenientes caminham um para o outro)

–   E ficaram assim, de pé, olhando-se nos olhos no momento de expirar...

–   Mas... porquê?

–   Mas... como?

–   Como é que isto começou?!?

–   Não sei!

–   Não sei! (os dois “soldados” agarram-se e vão caindo lentamente)

–   Morremos assim, sem saber porquê?!?

–   Morremos, sim, sem saber porquê!... (abraçam-se e ficam 
estáticos) (PAUSA)

–   GOTA de MEL!!! (em coro)

–   Numa bela noite de verão!!! (em coro)

FIM


A lenda da Moura Salúquia

Segundo a lenda, a princesa Salúquia, filha de Abu-Hassan e governadora da cidade então chamada Al-Manijah, apaixonou-se por Bráfama, alcaide mouro de Aroche. Na véspera do matrimónio, Bráfama dirigiu-se com uma comitiva para Al-Manijah, a dez léguas de distância. Mas todo o território alentejano a norte e oeste tinha já sido conquistado pelos cristãos e a jornada revelava-se perigosa.  Entretanto, D. Afonso Henriques encarregara dois fidalgos, os irmãos Álvaro Rodrigues e Pedro Rodrigues de conquistar a cidade, que estando ao corrente dos preparativos matrimoniais que aí se desenrolavam, emboscaram-se num olival perto dos limites da povoação. Surpreendidos pela ação dos cavaleiros cristãos, a comitiva de Aroche foi facilmente derrotada e Bráfama foi assassinado.

Disfarçando-se com as vestes dos representantes muçulmanos, os fidalgos cristãos dirigiram-se para a cidade. Salúquia estava no alto da torre do castelo, onde aguardava a chegada do seu noivo. Vendo aproximar-se um grupo de cavaleiros aparentemente islâmicos, a princesa julgou que se tratava da comitiva de Aroche, ao que ordenou que lhes franqueassem as portas da fortificação.

Mas mal transpuseram a muralha, os cristãos lançaram-se sobre os defensores da cidade, tomados de surpresa, e conquistaram o castelo. Salúquia apercebeu-se então do erro que tinha cometido e, ferida pela certeza da morte de Bráfama, tomou as chaves da cidade e precipitou-se da torre onde se encontrava.

Comovidos pela história de amor que os sobreviventes islâmicos lhes contaram, os irmãos Rodrigues teriam renomeado a cidade para Terra da Moura Salúquia. O tempo encarregar-se-ia de transformar esta designação para Terra da Moura, até que evoluíu para a actual forma de Moura.

A uma torre de taipa do Castelo de Moura ainda hoje se chama a Torre de Salúquia, e a um olival nas proximidades de Moura, aquele onde supostamente teriam sido emboscados Bráfama e a sua comitiva, o povo chama Bráfama de Aroche.

Nas armas da cidade figura, uma moura morta no chão, com uma torre em segundo plano, numa alusão à lenda da Moura Salúquia.



in, Alentejo - Terra e Gente [Joaquim Pedro] (adaptado)

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

NATAL 2013 - II

NATAL, E NÃO DEZEMBRO...

Entremos, apressados, friorentos,
Numa gruta, no bojo de um navio,
Num presépio, num prédio, num presídio,
No prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
Porque esta noite chama-se Dezembro,
Porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
Duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
A cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
De mãos dadas talvez o fogo nasça,
Talvez seja Natal e não Dezembro,
Talvez universal a consoada.


David Mourão-Ferreira, in Cancioneiro do Natal

NATAL 2013 - I

NATAL DE QUEM?...
Mulheres atarefadas
Tratam do bacalhau,
Do peru, das rabanadas.
- Não esqueças o colorau,
O azeite e o bolo-rei!
- Está bem, eu sei!
- E as garrafas de vinho?
- Já vão a caminho!
- Oh mãe, estou pr'a ver
Que prendas vou ter.
Que prendas terei?
- Não sei, não sei...
Num qualquer lado,
Esquecido, abandonado,
O Deus-Menino
Murmura baixinho:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?
Senta-se a família
À volta da mesa.
Não há sinal da cruz,
Nem oração ou reza.
Tilintam copos e talheres.
Crianças, homens e mulheres
Em eufórico ambiente.
Lá fora tão frio,
Cá dentro tão quente!
Algures esquecido,
Ouve-se Jesus dorido:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?
Rasgam-se embrulhos,
Admiram-se as prendas,
Aumentam os barulhos
Com mais oferendas.
Amontoam-se sacos e papéis
Sem regras nem leis.
E Cristo Menino
A fazer beicinho:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?
O sono está a chegar.
Tantos restos pela mesa e chão!
Cada um vai transportar
Bem-estar no coração.
A noite vai terminar
E o Menino, quase a chorar:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?
Foi a festa do Meu Natal
E, do princípio ao fim,
Quem se lembrou de Mim?
Não tive tecto nem afecto!
Em tudo, tudo, eu medito
E pergunto no fechar da luz:
- Foi este o Natal de Jesus?!?
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João Coelho dos Santos, in Lágrima do Mar – 1996 (adaptado)