UMA GOTA DE MEL
(“Jogo teatral”, inspirado num conto da tradição oral da Arménia, redigido por Hovanés Tumanian, editado em francês, em 1938, pelo dramaturgo e pedagogo Léon Chancerel e traduzido para português pelo encenador, escritor e artista plástico António Pedro.)
– Era uma vez...
– Um bom merceeiro. (dar um passo em frente)
– Era uma vez...
– Um bom pastor. (dar um passo em frente)
– É verdade que foi assim,
– Foi assim que tudo começou,
– Numa bela noite de verão.
– Isto começou, porque numa noite, numa serena e clara noite de verão...
– Um forte, alto, belo e bom pastor entrou –com o seu perdigueiro- na loja do merceeiro.
– Senhor merceeiro, tem mel para vender? (dirigir-se ao merceeiro)
– Mel excelente, meu bom pastor... bem medido e a preço razoável!
– Falavam assim, fraternalmente, durante uma serena e clara noite de verão, o vendedor e o cliente.
– O pastor e o merceeiro. (em tom esclarecedor)
– Ora, enquanto o bom merceeiro pesava honestamente o mel...
– O belo mel, cor de âmbar, que as louras irmãs abelhas extraíram das flores vermelhas... (em tom esclarecedor)
– TIC, uma gota... (todos)
– Uma gota de mel, cor de âmbar. (apontando para o chão)
– No chão da loja. (em tom esclarecedor)
– Uma gotazinha se entornou! (todos)
– Sim, foi assim que tudo começou! Ora... (recuar para o lugar inicial)
– ZZZzzzzzzz... (todos olham para o ar à procura da mosca)
– Uma mosca! (em tom de descoberta)
– Uma moxxxca! (em tom de descoberta, carregando na sibilante)
– Veio pousar sobre a gota, a pequenina gota caída no chão.
– O que entrava, naturalmente, na sua lógica de mosca! (em tom explicativo)
– O gaaato! (olha para o lado e aponta)
– Debaixo do armário. (em tom explicativo)
– O gato gor-di-nho do bom merceeiro... (com ar apreciativo)
– Já há muito que espreitava a mosca, o que entrava, naturalmente, na sua lógica de gato. (interrupção, em tom explicativo)
– O gaaato! (chamando a atenção)
– Miauuu! (todos)
– O gaaato deu um salto para cima da mosca.
– Miauuu / Fffff... Comeu-a! (todos)
– O caããoo! (todos imitam o ladrar do cão)
– O cãozarrão do pastor, assustado com o pulo do gato...
– ... e julgando que era com ele, o que entrava, naturalmente, na sua lógica de cão... (interrompendo)
– O cão... pu-lou!
– Uãããuu! (todos)
– E sem ser de propósito...
– CCRRR / MIAAUUU!!! (todos)
– O merceeiro agarra num pau...
– Zás! Zás! Zás! (simular gesto de bater no cão)
– Pobre do inocente cão do pastor!
– Morto ao lado do gato! Ah, malvado não me escapas! (avançar ameaçadoramente)
– O grande, forte e bom pastor vinga o seu fiel cão!
– Foi precisamente assim, na loja do merceeiro, que as coisas surgiram primeiro...
– ... em noite de verão fagueiro! (todos – agitação / discussão)
– Assassino! (apontar)
– Matador!
– Prendam-no!
– Matem-no! Matem-no! (todos)
– Toda a cidade está amotinada. Toda a cidade está desnorteada. E os sinos a tocar, as sirenes a apitar, os bombeiros e os soldados a chegar... (gesticula isolando-se do grupo)
– Defronte da loja, amotinada, a multidão está concentrada.
– O crime foi premeditado.
– O ataque foi preparado.
– A montanha contra a planície.
– Vingança! (em tom forte)
– Honra ultrajada!
– Mobilização proclamada. (em tom grave, para o público)
– Há fogo nas aldeias. (em tom penoso)
– Granadas nas pontes. (em tom penoso)
– Jovens mutilados. (em tom penoso)
– Árvores cortadas. (com pena)
– Campos arrasados. (com pena)
– Moças violadas. (com pena)
– Reféns fu-zi-la-dos! E isto pode durar, para os corvos alimentar!
– Doce mel das abelhas, fluido e açucarado...
– Doces abelhas, quem o teria pensado?!? (PAUSA)
– Os media pelo mundo, divulgam os comunicados. (em tom muito rápido)
– Salvemos a civilização! Salvemos a civilização! (em tom muito rápido)
– Quem quer tomar partido pelo direito? (energicamente) (PAUSA)
– Pelo triunfo da justiça, troai canhões! (energicamente)
– E sobre toda a humanidade, o manto vermelho da guerra, o cheiro empestado da guerra, o medo pairando entre os vivos, entre aqueles que escapam da guerra...
– Porquê tudo isto? (em tom triste)
– Porquê? (em tom de angustia)
– Como é que chegamos a tanto?!? (em tom de revolta)
– Como foi? (em tom triste)
– Como foi que tudo iiiss-to começou? (em tom de revolta) (PAUSA)
– Só havia um ofício! (em tom rápido)
– Só havia uma vocação! (idem)
– A GUERRA!!! (PAUSA)
– E a fo-me veio! (em tom pausado e bem silabado)
– E com ela a peste! (em tom explicativo)
– Já nem há tempo para enterrar os mortos, correm rios de sangue!
– O fu-mo es-cu-re-ceu o céu! (em tom pausado e silabado)
– Já não se sabe o que é uma árvore verde, uma ribeira azulada!
– Tudo é vermelho e negro! (em tom pausado e bem silabado)
– Espeeesso... e viscoooso! (mudando de tom) Tudo está reduzido a cinzas!
– Sangue!
– E laa-ma! (em tom rápido e silabado)
– Gota de mel!!! (cada interveniente à vez e depois em uníssono) (PAUSA)
– Mataram-se tantos e tantos, durante séculos, que um dia só ficaram, frente a frente, dois soldados. (dois intervenientes caminham um para o outro)
– E ficaram assim, de pé, olhando-se nos olhos no momento de expirar...
– Mas... porquê?
– Mas... como?
– Como é que isto começou?!?
– Não sei!
– Não sei! (os dois “soldados” agarram-se e vão caindo lentamente)
– Morremos assim, sem saber porquê?!?
– Morremos, sim, sem saber porquê!... (abraçam-se e ficam
estáticos) (PAUSA)
– GOTA de MEL!!! (em coro)
– Numa bela noite de verão!!! (em coro)
FIM
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