segunda-feira, 30 de outubro de 2023

POETA CASTRADO, NÃO!


Serei tudo o que disserem

por inveja ou negação:

cabeçudo, dromedário,

fogueira de exibição,

teorema, corolário,

poema de mão em mão,

lãzudo publicitário,

malabarista, cabrão.

Serei tudo o que disserem:

Poeta castrado, não!


Os que entendem como eu

as linhas com que me escrevo,

reconhecem o que é meu

em tudo quanto lhes devo:

ternura como já disse,

sempre que faço um poema;

saudade que se partisse

me alagaria de pena;

e também uma alegria,

uma coragem serena

em renegar a poesia

quando ela nos envenena.


Os que entendem como eu

a força que tem um verso,

reconhecem o que é seu

quando lhes mostro o reverso:

da fome já não se fala

– é tão vulgar que nos cansa –

mas que dizer de uma bala

num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história

– a morte é branda e letal –

mas que dizer da memória

de uma bomba de napalm?


E o resto que pode ser

o poema dia a dia?

– Um bisturi a crescer

nas coxas de uma judia;

um filho que vai nascer

parido por asfixia?!

– Ah não me venham dizer

que é fonética a poesia!


Serei tudo o que disserem

por temor ou negação:

Demagogo, mau profeta,

falso médico, ladrão,

prostituta, proxeneta,

espoleta, televisão.

Serei tudo o que disserem:

Poeta castrado, não!


ARY DOS SANTOS

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