"Raivinhas"
«Vivre d’amour et d’eau fraîche» (Viver de amor e de água fresca)
Pois nós aqui estamos, todos nos vêem, mas poucos nos conhecem. Puseram-nos nesta Escola dentro de uma terra arenosa, num processo deveras rápido: buraquinho, um poucochinho de substrato, arrancam-nos do nosso vasito, e pumba, fazem-nos jardim. E isto sem conversas, nem nenhuma delicadeza, nenhum respeito pelos nossos estados de alma. Para eles, fazemos parte de um projecto, quase épico, de renovação. E entregam-nos a quem leva mais barato. Está bem, não somos nenhumas princesas, temos de nos adaptar aos tempos que correm, «servir», mas esquecem-se que somos Vida!
Assim, vejam lá o que nos aconteceu: puseram-nos rega automática, mas esqueceram-se de uma torneira para lavar os vasos, as pedras de calçada, as ferramentas que nos acariciam e enxotam as ervas daninhas. Talvez para repararem esse lapso, abriram bocas de água que surge furiosamente em dias de chuva, e nos afoga. Em vez de nós deveriam ter plantado as nossas irmãs aquáticas, nenúfares, por exemplo…
Não sabemos, estamos perplexas, pois eles tiveram um rebate e puseram cascalho à volta das nossas irmãs mais em perigo! É que mesmo os bolbos dos nossos queridos narcisos e túlipas, que estão quase a remirarem-se ao sol, apanham jactos nada delicados e muito assustadores!
Digam a uma criança para nascer no meio de tantos contratempos, não, ela recusa-se!
No entanto, temos alguns amigos e protectores. Para já a nossa «nounou», que olha para nós e sabe aquilo de que precisamos. Com ela vêm uns meninos, (há alguns rapazes, confessamos, um pouco tontos) que arrancam as ervas e apanham o lixo com que nos presenteiam. Também já cortam as flores e as folhas secas…E ajudam a plantar os bolbos, não esquecendo o estrume de cavalo, o nosso preferido. E põem umas tabuletazinhas, para não nos baralharmos.
Só que há muito a fazer: lutar contra a invasão de sementes pouco apreciadas por nós, que se lançam manhosamente do muro lá de cima e nos querem retirar a nossa pretensão de sermos um jardim, tratar da nossa irmã árvore que estava doente antes de perder as folhas, verificar da vontade da outra mana de continuar entre nós, repor as queridas defuntas que se recusaram a viver…
Quem disse que um jardim era aquela «Quinta» da Internet que até entusiasma adultos, que preferem o «rato» ao sacho? É que é preciso sujar as mãos e dobrar as costas…
Claro que nós plantinhas, conhecemos meios que nos protegem das invasoras. A casca de pinheiro é nossa amiga e mais estética que os tubos de borracha da rega. Nós pensávamos que ela viria. Andaram até outros meninos com outra «nounou», a tirarem medidas, a verem a área, os sacos de 50 litros que seriam necessários…
E há também um «nounou» que ajuda os meninos pequenos a inventarem o logótipo do Clube. Ao menos alguns tratam-nos como gente…que somos!
Olhem, ouvimos dizer que eram vaidades para escolas ricas!
Mas a beleza não se paga? Viver no meio do belo não educa?
Entretanto, enquanto a nossa «nounou» nos consola, dizendo que os meios virão um dia, e arranja os vasos da «véranda», nós vamos resistindo a tudo e esperando a Primavera.
Já lá dizia o poeta Aragon:
«Un jour pourtant, un jour viendra couleur d’orange, un jour de palme, un jour de feuillages au front…un jour comme un oiseau sur la plus haute branche» (No entanto, um dia virá cor de laranja, um dia de loiros, um dia de folhagens na fronte…um dia como um pássaro no ramo mais alto).
A «nounou» do Clube de jardinagem «Jardin, je t’aime», Conceição B.M.
Publicado com o conhecimento e consentimento da amiga e colega C.B.M.

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