domingo, 14 de novembro de 2010

D. Sebastião - "Um Velho no Restelo"

Eram pelas seis horas da madrugada daquele dia de Junho, neblina cálida e aurora tímida a esmorecerem a exuberância da seda das bandeiras e grimpas doiradas, adejando de leve no topo de cada uma das tendas do acampamento.
Espraiava-se o exército desde o Terreiro do Paço à Praia do Restelo e El-Rei gostava de visitá-lo em frequentes descidas do seu coche, passo apressado na evidência do excitamento que lhe ia pela alma.
Tinha assistido à missa na Sé, onde na véspera o cardeal D. Henrique, escondendo o enfado, benzera a bandeira real e o seu testamento, escrito pelo próprio punho.
Nesse dia esperava D. Sebastião que chegassem, pela tarde, vindos de Coimbra, o escudo e o montante de Afonso Henriques, com que tencionava engrandecer-se na peleja.
De coche aberto e de cabeça descoberta, acompanhado pelo valido D. Cristóvão de Távora e o aio D. Aleixo de Meneses, ia gabando com incomedida satisfação as galés reais da sua esquadra a encher o rio a perder de vista, de montante a jusante, e que nada desmereciam das naus venezianas e das urcas da esquadra italiana, comandada pelo irlandês Tomás Sternvile, feito marquês de Leinster pelo Papa Gregório XIII, assimagraciado por ter acedido a incorporar-se na expedição.
A força naval italiana encontrava-se ancorada em Cascais e receberia os três mil soldados angariados na Alemanha pelo escrivão da fazenda Sebastião da Costa.
Tudo isto e o aparato dos diversos terços enchia de satisfação o adolescente Rei que aqui parava, ali chegava, ali exultava em pleno gozo antecipado da vitória e na febril exaltação da missão divina de que se julgava iluminado e incumbido.
O orgulho cegava-o e nem as constantes escaramuças entre as indisciplinadas hostes de tropas, recrutadas à pressa, o alertavam para a desorganização de um exército sobre o qual pairava a iminência de um desastre, no parecer dos mais velhos e experimentados vassalos, que pela reticência demonstrada cedo foram afastados de conselho. D. João Mascarenhas, D. Luís de Ataíde, Martim Afonso de Sousa foram desaproveitados em favor da jovem nobreza, soberba e inconsciente como o próprio Rei que adulavam.
E se já iam as despesas para perto de um milhão de cruzados, não se contava o que corria no gasto dos jovens fidalgos que, mais vaidosos do que aguerridos, se empenhavam em encher os olhos do Rei pelo esplendor do equipamento. Sedas, brocados e veludos, rendilhas e alamares de prata e ouro, pedrarias finas nas dobras dos chapéus, sapatos e escarpins de damasco e de cetim, telizes e xairéis em veludo, esporas de prata esmaltada, gualdrapas, cilhões, atafaias, antolheiros dos palafréns e ginetes em guadamecim ornado a ouro e prata, fatos e ferragoulos dos criados em seda, tudo isso encantava o Rei, como eles convencidode que mais se tratava de um passeio vitorioso ao Magreb do que uma contenda de desgraça e de morte.
Tinha chegado o Rei ao Restelo. Ao longe, o mosteiro dos hieronimitas, começado há quase um século, ainda enfarpelado em andaimes, escondia a renda de pedra a perdurar em beleza a glória da viagem à Índia.
D. Sebastião apeou-se, e antes de se acercar da orla da praia onde na maré baixa alguns marinheiros procediam ao embarque de uma remessa de sacas de trigo, movido por súbita inspiração, dirigiu-se ao convento.
E na contemplação da obra genial ali esteve uns minutos recolhido; e quando no íntimo da alma lhe lampejava já a ambição de suplantar a obra do bisavô com um monumento mais grandioso a perpetuar a sua vitória de Marrocos, eis que da sombra de um andaime, vindo não se sabe de onde, talvez de um relento naquela quente noite de Junho, lhe surge a figura empenada de um velho, que mesmo vagabundo e coberto de trapos ousou dirigir-lhe a palavra:
- Senhor! Eu vos esperava! E pela vossa infinita bondade deixai ouvir este poema que vos escrevi de alma e coração...
Um primeiro movimento de receio e de repulsa foi dominado pelo instinto juvenil da curiosidade no espírito do Rei. Constatando ausência de perigo, com um movimento de mão fez quedar Cristóvão de Távora e Aleixo de Meneses que já acorriam, sempre respeitosamente distanciados de quinze passos.
E D. Sebastião deixou ler.
Mas naquela voz rouca não chegou a terminar a leitura dos versos.
Caindo sobre a figura do velho, encheu-o D. Sebastião de sopapos e bofetões e, já no chão, o corpo do velho rebolado na areia, ainda o crivou de pontapés furiosos mas controlados, não se lhe sujassem os borzeguins, enquanto vociferava para o aio que, ansioso já chegava:
- Maldito! Maldito! Levai este cão maldito à guarda e que nunca mais lhe paguem a tença!

No dis seguinte, João da Silveira, contra-mestre da galé Senhora da Saúde, ao ferir-se na mão esquerda quando passava um caixote de bolachas para as costas de um marujo, procurou, para estancar o sangue, um pedaço qualquer de pano na babugem da maré e ao engano pegou no manuscrito, cujas letras já se iam fanando pela água entranhada.
Mesmo assim conseguiu ler:

Tamanha empresa à vil terra profana
Se a vós vaticinei valer cantada
Já me falece agora desejada
Pois homem sou, só Deus nunca se engana.

Tomai conselho só de experimentados
Vos disse, Senhor, e ora vos pressago
Terrível sina que da musa indago
Serem os portugueses derrotados.

Uma só palavra vos irá perder
E fará morrer os bravos de quinhentos...
Sou agora o velho venerando!

Ironia da palavra: Ter! É ter!
Findará a saga dos descobrimentos
E Portugal só ficará chorando...!

Francisco Hipólito Raposo, UM CONTO POR UM REAL, Texto Editora

Sem comentários:

Enviar um comentário