Em tempo de presépio chega-me sempre ao pensamento com especial ternura a linda Natividade em baixo-relevo e em calcário branco esculpido que se guarda e venera na Igreja de S. Leonardo, em Atouguia da Baleia. Viajando por aquelas bandas não deixe de a ir ver, leitor, pois, se for sensível, recordará sempre com agrado a magnífica serenidade que dela emana, a Virgem reclinada sobre um catre onde se encontra sentado o Menino Jesus que, incensado por dois anjos e no aconchego do bafo quente da vaca e do burro, vai receber de sua Mãe um livrinho e uma rosa, sob o olhar complacente da vigilante presença de S. José.
Será obra do primeiro terço do século XIV e até há pouco tempo ainda ocupava o seu lugar primitivo, como frontal do altar. Porém, obras recentes de restauro da igreja fizeram-no deslocar para outro local, talvez discutível, mas de melhor realce, e um louvável vidro espesso e inquebrável protege-o agora contra as indesejáveis mexidelas dos curiosos mais brutos.
Das nossas peças mais belas de escultura de época recuada desvirtua-a, porém, um pormenor de peso.
A razão dessa deficiência é o que vos propomos contar:
Reconhecidos os Templários a D. Dinis por ter contornado as exigências de Clemente V e João XXII de desfazer a Ordem, convertendo-a na de Cristo, à bula favorável de 1319 responderam-lhe os novos Cavaleiros com riquíssimos presentes, dos quais dois destinados especialmente à Rainha: o baixo-relevo da Natividade e a imagem de prata da Virgem (hoje no Museu Machado de Castro) que passou a acompanhar D. Isabel nas suas viagens a Compostela.
Mandou D. Isabel colocar o baixo-relevo em frontal de altar na Igreja de S. Leonardo de Touria (hoje Atouguia da Baleia), e era de sua dedicadíssima devoção quando, vinda de Lisboa a caminho de Leiria, ali pernoitava no castelo acabado de construir por seu marido e Rei. Em longa contemplação e infindas orações ficava prostrada a Rainha no sossego gélido da nave, agasalhando-se no seu hábito de peregrina de Santiago, tendo apenas por companhia o respeitoso silêncio das suas aias mais dedicadas, Teresa e Briolanja.
Foi naquela Igreja que invocou à Virgem, em desespero de mãe e esposa, uma paz duradoira que nascesse entre o ciumento e fogoso infante D. Afonso e o seu Senhor e Rei.
E a Virgem reclinada, sempre com o seu imperceptível sorriso de bondade, da pedra lhe ia satisfazendo os pedidos, premiando a virtuosa Senhora tão sua paladina, tão esmoler, Santa obreira dos restauros de Santa Clara e que tudo merecia pela fé que lhe votava.
Mas depois da definitiva paz entre pai e filho, garantida a sucessão pelo afastamneto das pretensões do bastardo Afonso Sanches, nem tudo foram rosas para D. Isabel. À morte de D. Dinis, em 1325, ia o seu neto príncipe Pedro com cinco anos, e o desgosto e a apreensão ensombravam a família real, pois o infante no esforço do nascimento, revelando já o vivíssimo carácter do pai e do signo do Carneiro, dos estridentes berros guinchados viera à luz com gravíssima quebradura. Em vão toda a medicina e curandorias da época lhe quiseram valer. À véspera de S. João lá se encontraram os três Joãos e as três Marias mais puras do reino, elas fiando cada uma o seu fuso numa só roca, o vime escachado por um dos rapazes, e o infante Pedro a ser passado pela abertura de um para outro dos Joãos restantes:
̶ Que fiais Marias?
̶ Linho asseado
para enligar o vime
do menino quebrado...
Ligado o vime e aperreado o infante pelo linho fiado, três meses depois soldou o vime mas não soldou a quebradura do futuro Rei.
Repetida foi a experiência com carvalho cerquinho, mas sem êxito. Também não passou a quebradura com os intestinos quentes de cão preto, com o unguento de solda nem ainda com o sangue de lagarto. Não resultou também o transporte da doença para a pedra, tentado por Frei Tarcísio, da Abadia de Alcobaça.
O menino continuava quebrado e a terrível faixa que lhe amenizava as dores e as cólicas não lhe permitia sequer subir à sela do seu lindo cavalo Sertório, presente de seu tio Fernando IV de Castela. Irascível, nunca o infante brincava ou sorria. Apertado pela dor da sua hérnia, aos mimos e desvelos das suas aias, quando a folga da faixa lho permitia respondia a pontapés, e os bruscos movimentos mais lhe aumentavam a dor. Aí babava-se de raiva e na impotência de dominar a sua dor cuspinhava a quem dele se aproximasse.
Era um martírio aturá-lo no Paço e todos, às escondidas da família real, lhe blasfemavam a sorte. E todos também, no íntimo, culpavam a avó, já com fama de Santa e incapaz de valer ao sofrimento do neto.
Ora, naquela véspera de Natal de 1325, ficara a corte instalada no Castelo de Touria, refazendo-se da fortíssima tempestade que atrasara a comitiva para o Natal a ser passado no Paço de Leiria.
E, assim, naquele ermo se preparavam todos para um Natal triste e pouco festivo, ainda enlutada a corte pela morte recente do seu Rei.
Afonso IV aceitou a contrariedade com benevolência, pois o filho inválido naquela terra sempre mostrara certo interesse pelas lutas dos touros com os mastins e algum entusiasmo pelos pavões que se criavam a uma légua, na cerca do Paço da Serra.
Mas sofrera muito o príncipe na viagem e vingara-se na irmã, a infanta D. Leonor, enchendo-lhe de nódoas negras de mordidelas os bracinhos rechonchudos. E nessa mesma manhã recusara o infante a cadeirinha que o levava ao touril.
Desde as primeiras horas da madrugada encontrava-se a Rainha-Mãe em S. Leonardo implorando mais uma vez à Virgem Reclinada do baixo-relevo de sua predilecta devoção o milagre para o seu neto. Estava completamente só, prostrada a meio da nave, em frente do altar, tendo dispensado daquela vigília de sacrifício as suas duas aias. E no íntimo monólogo com a Virgem lá ia implorando o milagre da cura do futuro Rei. Que a sacrificasse pelo neto, passando o mal para o seu corpo que tão pouco já tinha para viver.
̶ Senhora minha, valei, Senhora minha valei, às vossas mãos estou...
E de súbito, no silêncio gélido da nave que uma única lâmpada de azeite palidamente alumiava, um ruído seco, cavo e sacudido como a chicotada de um arco tenso que se dispara, estalou.
Dois segundos ainda ficou Santa Isabel inerte na posição da prece, mas bruscamente, consciente do insólito som, soergueu-se a velha Rainha em sobressalto.
E fascinada ficou por momentos ao ver o flagrante sinal que ali tão em evidência lhe mandava a Virgem. Uma quebradura, uma racha, fendia a escultura de cima a baixo, a passar pelas mãos da Virgem.
“Às Vossas mãos estou”... e a Virgem, de órbitas cegas, parecia sorrir-lhe agora, enquanto estendia ao seu menino a rosa que até à eternidade, na imobilidade da pedra, esperava em vão ser recebida por Jesus... Imobilidade da pedra que, no entanto, naquele tão simbólico sinal de uma rachadura inexplicável, noticiava com clareza o milagre concedido.
A quebradura passara à pedra...
Uma hora depois, ainda cavalgando a velha mula das suas peregrinações a S. Leonardo, teve a velha Rainha, ao chegar ao Paço, a confirmação do que intimamente já sabia.
E através das lágrimas que lhe alagavam os olhos viu a corte em grande euforia e alvoroço a apreciar um espectáculo:
E viu o neto, nu da cintura para baixo, liberto da tortura da faixa e são e escorreito como um bácoro rosado, correndo a bom correr e rindo, atrás de cinco pavões que lhe fugiam pelas arcadas do claustro...
Francisco Hipólito Raposo, UM CONTO POR UM REAL, Texto EditoraSerá obra do primeiro terço do século XIV e até há pouco tempo ainda ocupava o seu lugar primitivo, como frontal do altar. Porém, obras recentes de restauro da igreja fizeram-no deslocar para outro local, talvez discutível, mas de melhor realce, e um louvável vidro espesso e inquebrável protege-o agora contra as indesejáveis mexidelas dos curiosos mais brutos.
Das nossas peças mais belas de escultura de época recuada desvirtua-a, porém, um pormenor de peso.
A razão dessa deficiência é o que vos propomos contar:
Reconhecidos os Templários a D. Dinis por ter contornado as exigências de Clemente V e João XXII de desfazer a Ordem, convertendo-a na de Cristo, à bula favorável de 1319 responderam-lhe os novos Cavaleiros com riquíssimos presentes, dos quais dois destinados especialmente à Rainha: o baixo-relevo da Natividade e a imagem de prata da Virgem (hoje no Museu Machado de Castro) que passou a acompanhar D. Isabel nas suas viagens a Compostela.
Mandou D. Isabel colocar o baixo-relevo em frontal de altar na Igreja de S. Leonardo de Touria (hoje Atouguia da Baleia), e era de sua dedicadíssima devoção quando, vinda de Lisboa a caminho de Leiria, ali pernoitava no castelo acabado de construir por seu marido e Rei. Em longa contemplação e infindas orações ficava prostrada a Rainha no sossego gélido da nave, agasalhando-se no seu hábito de peregrina de Santiago, tendo apenas por companhia o respeitoso silêncio das suas aias mais dedicadas, Teresa e Briolanja.
Foi naquela Igreja que invocou à Virgem, em desespero de mãe e esposa, uma paz duradoira que nascesse entre o ciumento e fogoso infante D. Afonso e o seu Senhor e Rei.
E a Virgem reclinada, sempre com o seu imperceptível sorriso de bondade, da pedra lhe ia satisfazendo os pedidos, premiando a virtuosa Senhora tão sua paladina, tão esmoler, Santa obreira dos restauros de Santa Clara e que tudo merecia pela fé que lhe votava.
Mas depois da definitiva paz entre pai e filho, garantida a sucessão pelo afastamneto das pretensões do bastardo Afonso Sanches, nem tudo foram rosas para D. Isabel. À morte de D. Dinis, em 1325, ia o seu neto príncipe Pedro com cinco anos, e o desgosto e a apreensão ensombravam a família real, pois o infante no esforço do nascimento, revelando já o vivíssimo carácter do pai e do signo do Carneiro, dos estridentes berros guinchados viera à luz com gravíssima quebradura. Em vão toda a medicina e curandorias da época lhe quiseram valer. À véspera de S. João lá se encontraram os três Joãos e as três Marias mais puras do reino, elas fiando cada uma o seu fuso numa só roca, o vime escachado por um dos rapazes, e o infante Pedro a ser passado pela abertura de um para outro dos Joãos restantes:
̶ Que fiais Marias?
̶ Linho asseado
para enligar o vime
do menino quebrado...
Ligado o vime e aperreado o infante pelo linho fiado, três meses depois soldou o vime mas não soldou a quebradura do futuro Rei.
Repetida foi a experiência com carvalho cerquinho, mas sem êxito. Também não passou a quebradura com os intestinos quentes de cão preto, com o unguento de solda nem ainda com o sangue de lagarto. Não resultou também o transporte da doença para a pedra, tentado por Frei Tarcísio, da Abadia de Alcobaça.
O menino continuava quebrado e a terrível faixa que lhe amenizava as dores e as cólicas não lhe permitia sequer subir à sela do seu lindo cavalo Sertório, presente de seu tio Fernando IV de Castela. Irascível, nunca o infante brincava ou sorria. Apertado pela dor da sua hérnia, aos mimos e desvelos das suas aias, quando a folga da faixa lho permitia respondia a pontapés, e os bruscos movimentos mais lhe aumentavam a dor. Aí babava-se de raiva e na impotência de dominar a sua dor cuspinhava a quem dele se aproximasse.
Era um martírio aturá-lo no Paço e todos, às escondidas da família real, lhe blasfemavam a sorte. E todos também, no íntimo, culpavam a avó, já com fama de Santa e incapaz de valer ao sofrimento do neto.
Ora, naquela véspera de Natal de 1325, ficara a corte instalada no Castelo de Touria, refazendo-se da fortíssima tempestade que atrasara a comitiva para o Natal a ser passado no Paço de Leiria.
E, assim, naquele ermo se preparavam todos para um Natal triste e pouco festivo, ainda enlutada a corte pela morte recente do seu Rei.
Afonso IV aceitou a contrariedade com benevolência, pois o filho inválido naquela terra sempre mostrara certo interesse pelas lutas dos touros com os mastins e algum entusiasmo pelos pavões que se criavam a uma légua, na cerca do Paço da Serra.
Mas sofrera muito o príncipe na viagem e vingara-se na irmã, a infanta D. Leonor, enchendo-lhe de nódoas negras de mordidelas os bracinhos rechonchudos. E nessa mesma manhã recusara o infante a cadeirinha que o levava ao touril.
Desde as primeiras horas da madrugada encontrava-se a Rainha-Mãe em S. Leonardo implorando mais uma vez à Virgem Reclinada do baixo-relevo de sua predilecta devoção o milagre para o seu neto. Estava completamente só, prostrada a meio da nave, em frente do altar, tendo dispensado daquela vigília de sacrifício as suas duas aias. E no íntimo monólogo com a Virgem lá ia implorando o milagre da cura do futuro Rei. Que a sacrificasse pelo neto, passando o mal para o seu corpo que tão pouco já tinha para viver.
̶ Senhora minha, valei, Senhora minha valei, às vossas mãos estou...
E de súbito, no silêncio gélido da nave que uma única lâmpada de azeite palidamente alumiava, um ruído seco, cavo e sacudido como a chicotada de um arco tenso que se dispara, estalou.
Dois segundos ainda ficou Santa Isabel inerte na posição da prece, mas bruscamente, consciente do insólito som, soergueu-se a velha Rainha em sobressalto.
E fascinada ficou por momentos ao ver o flagrante sinal que ali tão em evidência lhe mandava a Virgem. Uma quebradura, uma racha, fendia a escultura de cima a baixo, a passar pelas mãos da Virgem.
“Às Vossas mãos estou”... e a Virgem, de órbitas cegas, parecia sorrir-lhe agora, enquanto estendia ao seu menino a rosa que até à eternidade, na imobilidade da pedra, esperava em vão ser recebida por Jesus... Imobilidade da pedra que, no entanto, naquele tão simbólico sinal de uma rachadura inexplicável, noticiava com clareza o milagre concedido.
A quebradura passara à pedra...
Uma hora depois, ainda cavalgando a velha mula das suas peregrinações a S. Leonardo, teve a velha Rainha, ao chegar ao Paço, a confirmação do que intimamente já sabia.
E através das lágrimas que lhe alagavam os olhos viu a corte em grande euforia e alvoroço a apreciar um espectáculo:
E viu o neto, nu da cintura para baixo, liberto da tortura da faixa e são e escorreito como um bácoro rosado, correndo a bom correr e rindo, atrás de cinco pavões que lhe fugiam pelas arcadas do claustro...
Publicado no jornal Expresso em 24/12/1982
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