FELIZ ANO NOVO!!!
Espaço ecléctico e multifacetado, dedicado à reflexão, à divulgação e à partilha de ideias.
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
Conto de Inverno
A VOZ DA EXPERIÊNCIA
KARAOK. Esta foi a solução que o Salvat me ofereceu à hora do almoço.
– É uma boa terapia – disse-me, dando uma dentada na sanduíche. Terapia? Tinha dito terapia? Olhei-o, bebendo o café, o café das dez, que é quase o único que me passa como um vidro aguçado pela garganta desde que a Laura me deixou.
– Tu cantas, meu, cantas e esqueces a desgraça.
Continuei a olhar para ele, continuei a fixar o Salvat. Quem era o Salvat? Quinze anos a trabalhar lado a lado na repartição das finanças da rua Guillén de Castro e na verdade não sabia bem quem era ele. Sabia que tinha mulher e filhos (quantos filhos?) que adorava por demais o futebol e sabia, além disso, que, desde agora, fazia karaok. Porque eu disse que tinha, uma vez que a sua mulher também o deixou, já lá vai para três anos.
– Jorge – continuou – eu sei. Ao princípio é como se te caísse o mundo em cima, não é assim? Tudo se desfaz como se fosse um baralho de cartas.
Não disse nada. Mas vi-o convidando-me com um gesto, subindo e descendo a sobrancelha. Esperava uma resposta.
– Não é assim? – insistiu.
Vi-me obrigado. Disse um sim amortizado pelo último sorvo da chávena, sentindo o café amargo fugindo pela minha língua e entre os dentes.
– É isso, é o mundo que se afunda – deixou a sanduíche no prato –. Sabes o que é que eu fazia aos domingos, os dezasseis primeiros domingos desde aquilo da Berta?
Ele dizia “aquilo da Berta”, não se alargava mais. “Aquilo da Berta” era o indicativo, um pacto com o interlocutor. Um pacto individual porque nem sempre o interlocutor sabia ao que se referia. E dezasseis domingos? Justamente esse número. Nem mais um nem menos um: dezasseis.
– O que é que fazias?
– Não sabes? – disse abrindo os olhos.
De repente senti-me cansado do assunto. O Salvat ali, mordiscando a sanduíche de lulas à romana, rodeado por colegas de outras secções, colegas que pedem cafés e cervejas e limpam a boca gordurenta com guardanapos de papel. E o Salvat a falar-me sobre “aquilo da Berta” e dando-me conselhos sobre a maneira como me havia de comportar e o que fazer, que caminho tomar. Por onde puxar.
– Não, não o sei.
– Chorar. Chorar. Como estás a ouvir, sim, sim; chorar e chorar.
Não disse nada.
– Chorar durante os dezasseis domingos seguidos? – perguntei.
Afirmou.
– Como uma Madalena – sublinhou –. É autêntico.
– E às segundas-feiras? Às segundas-feiras já não choravas ou quê?
– Às segundas-feiras, não.
– Porquê?
– Porque às segundas-feiras tinha o karaok.
– Karaok – disse olhando pelo espelho do fundo a alopecia imparável de Alonso, da Intervenção, que almoçava ao nosso lado.
O Salvat limpou algumas migalhas que tinha no peito, levantou a mão e fez um sinal de que queria um café. Fazia sempre isto. O polegar e o indicador em paralelo a três centímetros um do outro.
– O karaok – voltava novamente ao mesmo, fazendo deslizar a sua mão pelo meu ombro– é o novo yoga. No século que está a começar, o karaok é uma nova terapia. Pratico-o quatro vezes por semana.
Mas estaria a falar a sério? Podia fazer aquilo a sério? Como um imbecil, em frente do público, com um microfone, interpretando canções nostálgicas. Canções do passado.
– Tu tens que vir esta noite – disse de repente, estendendo a mão para agarrar na chávena –. Tu tens que vir comigo.
– Não sei.
– Não me digas que não sabes.Vens.
– É que eu não sei – protestei.
– Jorge – enfrentou-me: vi-lhe o nariz largo, de búfalo – lembra-te que eu sei muito bem o que tu sentes. Sei muito bem o sabor que tens quando acordas numa cama vazia, a sensação que tens quando estás no duche e quando tomas o pequeno almoço sozinho.
Abanei a cabeça. Nisso, ele estava certo. Tinha-se esquecido acrescentar que eu também chorava, mas não só aos domingos, mas sim todas as manhãs às sete, quando tocava o despertador, quando acendia a luz e passava a mão pela minha direita à procura do corpo de Laura e encontrava então o vazio do dredão e a sua almofada. Chorava em silêncio quando abri a cortina e ainda era de noite. O duche, o pequeno almoço, a minha chávena no lavatório, um olhar pelo vestíbulo e a um espaço da sala antes de fechar com a pasta na mão. Por que levava a pasta? Não me fazia falta para a agenda, a esferográfica e a calculadora. Ele tinha acertado em relação a esse sabor de tristeza infinita que me vinha do céu da boca até ao estômago como se fosse uma brasa.
– E sei mais ainda – disse, rasgando o pacotinho de açúcar e entornando-o na chávena–. Sei o que se sente quando são as oito e meia da noite e já não sabes para onde ir, o que fazer para preencher o ócio, para evitar ir para casa porque a casa cai-te em cima. Ou não é? Ou não é?
Sorria. O cretino gozava com tudo aquilo.Dava-lhe prazer mostrar que sabia o que eu sabia, saber que me doía no meio da alma meter a chave à porta e dar ao interruptor, acender todos os interruptores da casa, ligar a televisão ainda que não lhe prestasse nenhuma atenção, ouvir vozes ao fundo enquanto descongelava uma posta de pescada e umas ervilhas no microondas. Aguentar até ao máximo, fosse o que fosse, programas de merda, filmes, documentários, debates políticos. Resistir até ao momento mais duro: ir apagando cada uma das luzes e percorrer o corredor até ao quarto. Depois, ainda por cima, há os pesadelos, as lagunas de insónia, a angústia que nascia de tudo isso. Acordar a meio da noite e estender a mão para o vazio.
– Não é assim?
Não respondi.
– Não é verdade?
– É verdade – disse, dando uma olhadela ao relógio da caixa registadora –. Há que regressar ao escritório. Bebeu a última gota do seu café e saímos.
– Esta noite vou buscar-te às nove em ponto – disse-me. E como não respondi, atacou de novo.
– Nove em ponto?
– Está bem – disse.
Fomos ao karaok. Era um café na Avenida de Aragón. Nunca lá tinha estado. A verdade é que nunca tinha estado em nenhum dessa série de cafés que, encadeadas, porta com porta, há na Avenida de Aragón.
– É normal – disse-me o Salvat quando lho disse, enquanto arrumávamos o carro –. São cafés para ex. Aqui somos todos ex.
– Ex? –indaguei, ainda que intuísse ao que se referia.
– Por aqui – apontou com os olhos – andam todos os ex da cidade. Os ex que superaram a sua situação.
Pensei imediatamente em Laura. Horrorizou-me a ideia de me encontrar com ela. Há já dois meses que não a via, desde o nosso último e definitivo encontro no escritório do seu advogado.
Fiquei com uma grande ansiedade só de pensar que podia encontrá-la, enquanto me passavam o microfone para as mãos para que cantasse "El gato que está triste y azul".
– Viste alguma vez a Laura por aqui? – interroguei-o, prendendo-lhe o ombro quando tentava sair do carro.
– A tua ex?
Como é que ele me estava a perguntar isso? Quem é que poderia ser a Laura senão ela?
– Claro.
– Não.
Mantive-o agarrado.Voltou a sentar-se.
– Ouve – disse-me – eu sei o que tu sentes.
Outra vez não, por favor. Que não me viesse com aquele que já ia um passo à minha frente.
– Ou seja –começou por dizer– é como se fosses alcoólico e fosses a uma sessão com ex alcoólicos. Nunca viste isso em filmes? A primeira coisa que deves reconhecer é que a Laura não voltará – olhou-me nos olhos, olhou-me e percebi que pintava o cabelo, que usava Grecian 2000 ou algo do género –. Nunca. Laura não voltará. Nunca.
Fiquei com essas quatro palavras. O resto, já que ele continuava a falar, não importava. A única coisa que me chegava eram as palavras Laura, não, voltará e nunca. Como é que era possível que nunca tivesse pensado nisso? Por que é que eu sempre tinha pensado até esse preciso lapso de tempo em que o Salvat mo tinha dito ali, dentro do seu Volkswagen Golf, cinzento, os dois sentados, nesse lapso de tempo preciso em que chuviscava e o vidro do carro se enchia de gotas, por que é que eu sempre tinha pensado que um dia, numa tarde ou a uma qualquer hora imprevista tocaria a campainha de casa, abriria a porta e ali estaria a laura, provavelmente com o cabelo molhado, porque também chovia e se me lançaria ao pescoço e aos lábios como se a nossa separação tivesse sido uma patética alucinação?
– Entendes, Jorge? Entendes?
– Sim – disse sem saber a que respondia.
– Então, vamos a isto –disse-me saindo do carro.
Ao entrar, Salvat começou a cumprimentar pessoas. Conhecia toda a gente. Íamos andando para uma mesa e ele cumprimentava aqui e ali. À quinta apresentação, disse-lhe que não era necessário que me fosse apresentando a toda a gente.
Finalmente, chegámos e sentámo-nos sozinhos. O ambiente estava carregado de fumo. Tínhamo-nos sentado na única mesa livre. Seríamos umas cinquenta ou sessenta pessoas.
– O que é que tomas? – perguntou-me, tirando o seu telemóvel e desligando-o.
Aproximava-se de nós um empregado de mesa. Ouvia-se música, mas não estava ninguém a cantar. Na diagonal reparei num écran iluminado.
– Um café.
– Um café? – gozou –. Olha, Jorge...
– O mesmo que tu – interrompi-o.
– Assim está melhor – dirigiu-se ao empregado de mesa: – duas cubas libres de rum com um pouco de genebra. Mas que seja Larios. Depois puxou por um maço de cigarros. Alguém lhe gritou à sua esquerda.
– Desculpa – disse-me, levantando-se e indo ao encontro de uma mulher loira.
Entretive-me a olhar. Ex, pensei. A verdade é que tinha pinta disso. Vestia de uma maneira demasiado jovem para os anos que aparentava. De trinta a cinquenta e quatro, de certeza. O meu aspecto começava a moldar-se ao meu estado actual de ex? Se alguém me olhasse de frente, talvez estivesse a pensar no mesmo que eu pensava dela? Ex. Um ex mais na lista, no grupo daqueles ex que ali havia. As pessoas falavam em voz alta, fumavam e riam-se. Eu tinha vontade de me ir embora. Salvat regressou.
– Desculpa. Não a conheces?
Olhei por detrás dele. Falava com outro ex.
– Não. Deveria conhecê-la?
– É a Alvarez, da Repartição Pública.
Olhei de novo.
– Aquela? Aquela é a Maria Alvarez?
Disse que sim.
– Mas não era morena? – disse.
– Agora é ex.
– E?
– Bolas, é outra vida – aproximou-se, vinha sermão –.Tens que te mexer. Se não, sabes o que é que te vai acontecer?
Não respondi.
– Vais enrugar-te como uma passa e em dois meses estás num farrapo. Exactamente assim. Nestas coisas há que ser realista com o doente – i nclinou-se para a frente: tu estás doente, rapaz.
– Eu?
– De melancolia.
O empregado de mesa trouxe-nos as bebidas. Ia para pagar, mas o Salvat não no permitiu.
– Esta rodada é minha –disse-me, puxando por uma nota.
As luzes flutuaram. As pessoas gritaram. Era o sinal. O sinal. Em algumas mesas levantavam as mãos.Vi que outro empregado tomava nota, Salvat levantou a sua.
– O que é que se passa? – disse.
– É a série para cantar.
Tentei baixar-lhe o braço.
– Eu não canto – disse-lhe muito sério.
Riu-se.
– Salvat, olha que eu não canto, é o que te estou a dizer.
O empregado fez-lhe um sinal, indicou-lhe o número três com os dedos. Contava connosco.
– Temos o três.
– Eu não canto.
– Lembra-te que isto é terapia – disse, sorvendo do seu copo alongado.
Houve outra mudança de luzes e fez-se silêncio. No écran apareceu o nome de Juan Manuel Serrat e o título "Mediterráneo". De uma das mesas saiu uma voz de homem. Procurei com o olhar. Alguém seguia a letra da canção de Serrat, modulando-a, enganando-se por vezes. Imitando-a. Até que chegou ao fim e as pessoas aplaudiram. As pessoas aplaudiam e o tipo levantava-se e agachava-se, agradecia, juntava as mãos sobre o peito. Actuava. Via-se, sem dúvida, num palco. Não era só isso, pensava mesmo que era o próprio Serrat.
– Aquele tipo – disse-me o Salvat, lançando o fumo como se assobiasse– é hoje um bom bocado mais feliz que ontem. Isto do karaok é uma grande terapia, Jorge.
Disse que sim e bebi do meu copo. Voltei a olhar para o sucedâneo de Serrat. Estava acompanhado por outro que lhe dava palmadinhas nas costas. Também olhei para o corredor. A coisa tinha acabado de começar, mas eu não pensava ir fazer figura ridícula. Se fosse necessário simularia, inclusive, um desmaio, mas eu não iria cantar perante aquela concentração de ex.
O seguinte foi uma mulher, já entrada nos anos, a menos de cinco metros de nós. Para mim, em vez de ser uma ex, era simplesmente uma viúva. Ou uma viúva ex, mas dava a impressão que estava muito à vontade. Interpretou uma canção de Mecano. Meu Deus, que patético. Chamava-me a atenção como o Salvat permanecia muito atento. Como estava calado e respeitador enquanto a mulher fazia entoar a sua voz e de dez em dez ou de doze em doze segundos limpava a comissura dos lábios com um lenço cor de rosa. Quando faltava pouco para acabar, Salvat disse-me que me preparasse, que nós éramos os que estávamos a seguir.
– Eu não.
– Estou a tratar da tua vida – sussurrou-me –. E de borla.
– Salvat, eu não canto – disse elevando um pouco a voz.
Voltaram-se de algumas mesas. Alguém nos pediu silêncio. Salvat desculpou-se com uma careta e piscou-me o olho. Sem pensar duas vezes e antes que a mulher acabasse, levantei-me com o casaco na mão, voltei-me para o Salvat, sem dar-lhe tempo para reagir e disse-lhe que ia à casa de banho e que voltava logo a seguir. Percorri o corredor por entre as mesas, passando pelo fumo de dezenas de cigarros e pelo fundo monótono da canção.
– A casa de banho, por favor? – perguntei ao empregado de mesa.
– Sempre em frente à direita. Mas seja rápido que você está a seguir.
Percebi que era ele que levava a conta. Seria capaz de dizer ao microfone que era preciso esperar porque o cantor seguinte estava na casa de banho? Sorri-lhe com um tique e dirigi-me para o sítio que me tinha indicado. Entrei e fechei-me. Olhei-me ao espelho. O que é que estava a fazer? O que é que estava a fazer naquele karaok e o que é que fazia metido naquela casa de banho? Trinta e dois anos, cinco de casado e seis meses de divorciado. Porquê fugir e fugir de quê? Tinha que me ir embora, sem mais, sem me importar se aborrecia o Salvat, mas fugir não. Agradecia-lhe o seu interesse, a sua dedicação, a sua tentativa para me tirar de casa e tudo isso, mas nada mais. Colei a orelha à porta e deixei de respirar, queria ouvir o que se passava lá fora, no palco. Não percebia nada. Não ouvia nada. Estariam à minha espera? O empregado de mesa teria dito certamente que dentro de pouco tempo eu estaria ali? Abri uma nesga da porta e observei. O corredor continuava escuro, não se via nenhum movimento. Espreitei. O empregado de mesa, de braços cruzados, olhava para as mesas. Não se ouvia música. Estavam à minha espera. Não tive qualquer dúvida. Estavam à minha espera. Imaginei o Salvat a aguentar o microfone, dizendo algumas palavras, apresentando a minha imediata actuação. Talvez contando algumas graças de divórcios, de adultérios, anedotas de ex. Decidi-me a sair para o corredor. Fui nas pontas dos pés e em vez de virar para o interior (de facto, Salvat falava, não soube o que dizia, mas falava ao microfone perante o silêncio expectante das pessoas, dir-lhes-ia que tivessem paciência comigo, que era um ex recente, ainda afectado?), dirigi-me para a porta e encontrei-me na rua. Tinha deixado de chover. Surpreendentemente o céu tinha-se enchido de estrelas. Era Lua nova. Uma imensa Lua nova. Ainda caíam gotas das árvores. Respirei fundo e soube-me bem. Caminhei lentamente em direcção a minha casa, sem me cruzar com ninguém, recriando-me no que ia encontrando, nas luzes das janelas dos prédios, na vida que haveria ali dentro. Um ou outro táxi, um ou outro carro, um autocarro que se dirigia para o seu retiro. Os cafés por onde passava viam-se replectos de gente através dos vidros embaciados. A minha casa não era longe dali. Em quinze minutos já estaria nela, à porta, no elevador, no patamar, metendo a chave, entrando sem pensar nisso, descalçando-me, sentindo o frio do mármore na planta dos pés, sem sentir o peso de Laura, da sua ausência. Sem me questionar, como o tinha feito nos últimos seis meses, o que estaria a Laura fazer naquele mesmo instante.
Miguel Herráez, ELS PLECS DEL MAGNÀNIM, Valencia, 2004
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Presépio de lata
Presépio de lata - Rui Veloso
Três estrelas de alumínio
A luzir num céu de querosene
Um bêbado julgando-se césar
Faz um discurso solene
Sombras chinesas nas ruas
Esmeram-se aranhas nas teias
Impacientam-se as gazuas
Corre o cavalo nas veias
Há uma luz na barraca
Lá dentro uma sagrada família
À porta um velho pneu com terra
Onde cresce uma buganvília
É o presépio de lata
Jingle bells, jingle bells,
Oiçam um choro de criança
Será branca negra ou mulata
Toquem as trompas da esperança
E assentem bem qual a data
A lua leva a boa nova
Aos arrabaldes mais distantes
Avisa os pastores sem tecto
Tristes reis magos errantes
E vem um sol de chapa fina
Subindo a anunciar o dia
Dois anjinhos de cartolina
Vão cantando aleluia
É o presépio de lata
Jingle bells, jingle bells,
Nasceu enfim o menino
Foi posto aqui à falsa fé
A mãe deixou-o sozinho
E o pai não se sabe quem é
É o presépio de lata
Jingle bells, jingle bells
Três estrelas de alumínio
A luzir num céu de querosene
Um bêbado julgando-se césar
Faz um discurso solene
Sombras chinesas nas ruas
Esmeram-se aranhas nas teias
Impacientam-se as gazuas
Corre o cavalo nas veias
Há uma luz na barraca
Lá dentro uma sagrada família
À porta um velho pneu com terra
Onde cresce uma buganvília
É o presépio de lata
Jingle bells, jingle bells,
Oiçam um choro de criança
Será branca negra ou mulata
Toquem as trompas da esperança
E assentem bem qual a data
A lua leva a boa nova
Aos arrabaldes mais distantes
Avisa os pastores sem tecto
Tristes reis magos errantes
E vem um sol de chapa fina
Subindo a anunciar o dia
Dois anjinhos de cartolina
Vão cantando aleluia
É o presépio de lata
Jingle bells, jingle bells,
Nasceu enfim o menino
Foi posto aqui à falsa fé
A mãe deixou-o sozinho
E o pai não se sabe quem é
É o presépio de lata
Jingle bells, jingle bells
Um conto de Natal
Um Conto de Natal - Miguel Torga
De sacola e bordão, o velho Garrinchas fazia os possíveis para se aproximar da terra. A necessidade levara-o longe de mais. Pedir é um triste ofício, e pedir em Lourosa, pior. Ninguém dá nada. Tenha paciência, Deus o favoreça, hoje não pode ser – e beba um desgraçado água dos ribeiros e coma pedras! Por isso, que remédio senão alargar os horizontes, e estender a mão à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de negar uma côdea a um homem a meio do padre-nosso. Sim, rezava quando batia a qualquer porta. Gostavam... Lá se tinha fé na oração, isso era outra conversa. As boas acções são que nos salvam. Não se entra no céu com ladainhas, tirassem daí o sentido. A coisa fia mais fino! Mas, enfim... Segue-se que só dando ao canelo por muito largo conseguia viver.
E ali vinha de mais uma dessas romarias, bem escusadas se o mundo fosse de outra maneira. Muito embora trouxesse dez reis no bolso e o bornal cheio, o certo é que já lhe custava arrastar as pernas. Derreadinho! Podia, realmente, ter ficado em Loivos. Dormia, e no dia seguinte, de manhãzinha, punha-se a caminho. Mas quê! Metera-se-lhe na cabeça consoar à manjedoira nativa... E a verdade é que nem casa nem família o esperavam. Todo o calor possível seria o do forno do povo, permanentemente escancarado à pobreza.
Em todo o caso sempre era passar a noite santa debaixo de telhas conhecidas, na modorra de um borralho de estevas e giestas familiares, a respirar o perfume a pão fresco da última cozedura... Essa regalia ao menos dava-a Lourosa aos desamparados. Encher-lhes a barriga, não. Agora albergar o corpo e matar o sono naquele santuário colectivo da fome, podiam. O problema estava em chegar lá. O raio da serra nunca mais acabava, e sentia-se cansado. Setenta e cinco anos, parecendo que não, é um grande carrego. Ainda por cima atrasara-se na jornada em Feitais. Dera uma volta ao lugarejo, as bichas pegaram, a coisa começou a render, e esqueceu-se das horas. Quando foi a dar conta passava das quatro. E, como anoitecia cedo não havia outro remédio senão ir agora a mata-cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar. Aflito, batia-lhe na taipa do peito, a pedir misericórdia. Tivesse paciência. O remédio era andar para diante. E o pior de tudo é que começava a nevar! Pela amostra, parecia coisa ligeira. Mas vamos ao caso que pegasse a valer? Bem, um pobre já está acostumado a quantas tropelias a sorte quer. Ele então, se fosse a queixar-se! Cada desconsideração do destino! Valia-lhe o bom feitio. Viesse o que viesse, recebia tudo com a mesma cara. Aborrecer-se para quê?! Não lucrava nada! Chamavam-lhe filósofo... Areias, queriam dizer. Importava-se lá.
E caía, o algodão em rama! Caía, sim senhor! Bonito! Felizmente que a Senhora dos Prazeres ficava perto. Se a brincadeira continuasse, olha, dormia no cabido! O que é, sendo assim, adeus noite de Natal em Lourosa...
Apressou mais o passo, fez ouvidos de mercador à fadiga, e foi rompendo a chuva de pétalas. Rico panorama!
Com patorras de elefante e branco como um moleiro, ao cabo de meia hora de caminho chegou ao adro da ermida. À volta não se enxergava um palmo sequer de chão descoberto. Caiados, os penedos lembravam penitentes.
Entrou no alpendre, encostou o pau à parede, arreou o alforge, sacudiu-se, e só então reparou que a porta da capela estava apenas encostada. Ou fora esquecimento, ou alguma alma pecadora forçara a fechadura.
Vá lá! Do mal, o menos. Em caso de necessidade, podia entrar e abrigar-se dentro. Assunto a resolver na ocasião devida... Para já, a fogueira que ia fazer tinha de ser cá fora. O diabo era arranjar lenha.
Saiu, apanhou um braçado de urgueiras, voltou, e tentou acendê-las. Mas estavam verdes e húmidas, e o lume, depois de um clarão animador, apagou-se. Recomeçou três vezes, e três vezes o mesmo insucesso. Mau! Gastar os fósforos todos é que não.
Num começo de angústia, porque o ar da montanha tolhia e começava a escurecer, lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel.
Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavetão, e já mais sossegado, e também agradecido ao céu por aquela ajuda, olhou o altar.
Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe. Boas festas! — desejou-lhe então, a sorrir também. Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o arcanho. Olarila! Na altura da romaria que arranjassem um novo.
Daí a pouco, envolvido pela negrura da noite, o coberto, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas crescia água na boca; que mais faltava?
Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda. É servida?
A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também.
E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
CHICOLOMUENHO
Esta foi a palavra que me habituei a ouvir durante toda a minha vida, entre os meus avós, pais e tios, utilizada como cumprimento e saudação. Vem do dialecto dos Mucancalas, tribo do sul de Angola.
Sempre pensei que queria dizer “Olá como estás”, faz pouco tempo perguntei à minha mãe o que queria dizer e fiquei a saber que quer dizer “O que Vale é a Vida”.
Entendi então que quando queremos muito alguém, quando estamos bem connosco e com os outros o que “Vale é a Vida”.
Nesta altura do ano em que reflectimos e queremos estar com quem mais gostamos, fica o desejo de Feliz Natal, mas acima de tudo...
Chicolomuenho!!!
Impostos
E a história repete-se...
Diálogo entre Colbert e Mazarino durante o reinado de Luís XIV:
Colbert: Para encontrar dinheiro, há um momento em que enganar [o contribuinte] já não é possível. Eu gostaria, Senhor Superintendente, que me explicasse como é que é possível continuar a gastar quando já se está endividado até ao pescoço...
Mazarino: Se se é um simples mortal, claro está, quando se está coberto de dívidas, vai-se parar à prisão. Mas o Estado... o Estado, esse, é diferente!!! Não se pode mandar o Estado para a prisão. Então, ele continua a endividar-se... Todos os Estados o fazem!
Colbert: Ah sim? O Senhor acha isso mesmo ? Contudo, precisamos de dinheiro. E como é que havemos de o obter se já criámos todos os impostos imagináveis?
Mazarino: Criam-se outros.
Colbert: Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres.
Mazarino: Sim, é impossível.
Colbert: E então os ricos?
Mazarino: Os ricos também não. Eles não gastariam mais. Um rico que gasta faz viver centenas de pobres.
Colbert: Então como havemos de fazer?
Mazarino: Colbert! Tu pensas como um queijo, como um penico de um doente! Há uma quantidade enorme de gente entre os ricos e os pobres: os que trabalham sonhando em vir a enriquecer e temendo ficarem pobres. É a esses que devemos lançar mais impostos, cada vez mais, sempre mais! Esses, quanto mais lhes tirarmos mais eles trabalharão para compensarem o que lhes tirámos. É um reservatório inesgotável.
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Costumes natalícios
Costumes festivos do Natal português
No princípio, eram as festas do solstício de inverno. A vitória da luz sobre a mais longa noite do ano. As trevas dominavam tudo, estava-se a séculos da descoberta da electricidade, só a lua era agente de claridade nas noites escuras e sem nuvens. Reminiscência desses tempos é, sobretudo nas terras do interior português, a queima dos cepos de árvores adultas que os jovens vão buscar aos campos, em acções que conservam o carácter de rituais de iniciação. Nas regiões de Trás-os-Montes, da Beira interior e no Alentejo é onde as fogueiras, acesas nos largos principais na noite de 24 de Dezembro, perto das igrejas onde estão armados os presépios, durante mais tempo se mantêm acesas. A reunião das famílias à volta da lareira sai para a rua e alarga-se a toda a comunidade.
O Alentejo, por razões históricas, a mais descristianizada das regiões portuguesas é, no entanto, aquela em que as expressões de religiosidade popular alcançavam mais alta expressão. O madeiro do Natal é aceso nas lareiras dos montes e, em muitas terras, esta manifestação transfere-se para os largos. É o caso de Barrancos, a vila de fronteira cujos habitantes têm um linguajar próprio -o barranquenho- e tradições únicas.
Nos dias que antecedem as festas, os rapazes vão ao campo arranjar lenha para fazer o fogo no largo da vila. Amontoam-se toneladas de raízes e de troncos de árvores e, na noite da Consoada, acende-se "o lume", ritmado pelo som cavo da "zambomba" (uma caixa, um cântaro com a boca tapada com a pele seca de coelho, de borrego ou a bexiga de porco, atravessada por uma cana), canta-se ao Menino, nas "palhas deitado", conversa-se, petisca-se e bebe-se vinho. A porta da igreja fica aberta, para que "o lume" aqueça os pézinhos do Menino-Deus dos católicos.[...]
"Zambombita, zambombita
yo te tengo que romper,
a la puerta de mi novia
no quiciste tocar bien..."
David Lopes Ramos, Boavida / À Mesa, in TEMPO LIVRE, nº 221, Dezembro de 2010, Fundação Inatel (adaptado)
domingo, 19 de dezembro de 2010
Árvore de Natal
União
Alegria
Esperança
Amor Sucesso
Realização Luz
Respeito Harmonia
Saúde Solidariedade
Felicidade Humildade
Confraternização Pureza
Amizade Sabedoria Perdão
Igualdade Liberdade Boa Sorte
Sinceridade Estima Fraternidade
Equilíbrio Dignidade Benevolência
Fé Bondade Paciência Gratidão
Força
Tenacidade Prosperidade Reconhecimento
Wham!!!
Last christmas
Last Christmas, I gave you my heart
But the very next day, You gave it away
This year, to save me from tears
I'll give it to someone special
Last Christmas, I gave you my heart
But the very next day, You gave it away
This year, to save me from tears
I'll give it to someone special
Once bitten and twice shy
I keep my distance but you still catch my eye
Tell me baby do you recognise me?
Well it's been a year, it doesn't surprise me
(Happy Christmas!) I wrapped it up and sent it
With a note saying "I Love You" I meant it
Now I know what a fool I've been
But if you kissed me now I know you'd fool me again
Chorus
(Oooh. Oooh Baby)
A crowded room, friends with tired eyes
I'm hiding from you and your soul of ice
My God I thought you were someone to rely on
Me? I guess I was a shoulder to cry on
A face on a lover with a fire in his heart
A man undercover but you tore me apart
Oooh Oooh
Now I've found a real love you'll never fool me again
Chorus
A face on a lover with a fire in his heart
(Gave you my heart)
A man undercover but you tore me apart
Next year
I'll give it to someone, I'll give it to someone special
special
someone
someone
I'll give it to someone, I'll give it to someone special
who'll give me something in return
I'll give it to someone
hold my heart and watch it burn
I'll give it to someone, I'll give it to someone special
I've got you here to stay
I can love you for a day
I thought you were someone special
gave you my heart
I'll give it to someone, I'll give it to someone
last christmas I gave you my heart
you gave it away
I'll give it to someone, I'll give it to someone
MERRY CHRISTMAS!!!
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
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