No princípio, eram as festas do solstício de inverno. A vitória da luz sobre a mais longa noite do ano. As trevas dominavam tudo, estava-se a séculos da descoberta da electricidade, só a lua era agente de claridade nas noites escuras e sem nuvens. Reminiscência desses tempos é, sobretudo nas terras do interior português, a queima dos cepos de árvores adultas que os jovens vão buscar aos campos, em acções que conservam o carácter de rituais de iniciação. Nas regiões de Trás-os-Montes, da Beira interior e no Alentejo é onde as fogueiras, acesas nos largos principais na noite de 24 de Dezembro, perto das igrejas onde estão armados os presépios, durante mais tempo se mantêm acesas. A reunião das famílias à volta da lareira sai para a rua e alarga-se a toda a comunidade.
O Alentejo, por razões históricas, a mais descristianizada das regiões portuguesas é, no entanto, aquela em que as expressões de religiosidade popular alcançavam mais alta expressão. O madeiro do Natal é aceso nas lareiras dos montes e, em muitas terras, esta manifestação transfere-se para os largos. É o caso de Barrancos, a vila de fronteira cujos habitantes têm um linguajar próprio -o barranquenho- e tradições únicas.
Nos dias que antecedem as festas, os rapazes vão ao campo arranjar lenha para fazer o fogo no largo da vila. Amontoam-se toneladas de raízes e de troncos de árvores e, na noite da Consoada, acende-se "o lume", ritmado pelo som cavo da "zambomba" (uma caixa, um cântaro com a boca tapada com a pele seca de coelho, de borrego ou a bexiga de porco, atravessada por uma cana), canta-se ao Menino, nas "palhas deitado", conversa-se, petisca-se e bebe-se vinho. A porta da igreja fica aberta, para que "o lume" aqueça os pézinhos do Menino-Deus dos católicos.[...]
"Zambombita, zambombita
yo te tengo que romper,
a la puerta de mi novia
no quiciste tocar bien..."
David Lopes Ramos, Boavida / À Mesa, in TEMPO LIVRE, nº 221, Dezembro de 2010, Fundação Inatel (adaptado)


Sem comentários:
Enviar um comentário