KARAOK. Esta foi a solução que o Salvat me ofereceu à hora do almoço.
– É uma boa terapia – disse-me, dando uma dentada na sanduíche. Terapia? Tinha dito terapia? Olhei-o, bebendo o café, o café das dez, que é quase o único que me passa como um vidro aguçado pela garganta desde que a Laura me deixou.
– Tu cantas, meu, cantas e esqueces a desgraça.
Continuei a olhar para ele, continuei a fixar o Salvat. Quem era o Salvat? Quinze anos a trabalhar lado a lado na repartição das finanças da rua Guillén de Castro e na verdade não sabia bem quem era ele. Sabia que tinha mulher e filhos (quantos filhos?) que adorava por demais o futebol e sabia, além disso, que, desde agora, fazia karaok. Porque eu disse que tinha, uma vez que a sua mulher também o deixou, já lá vai para três anos.
– Jorge – continuou – eu sei. Ao princípio é como se te caísse o mundo em cima, não é assim? Tudo se desfaz como se fosse um baralho de cartas.
Não disse nada. Mas vi-o convidando-me com um gesto, subindo e descendo a sobrancelha. Esperava uma resposta.
– Não é assim? – insistiu.
Vi-me obrigado. Disse um sim amortizado pelo último sorvo da chávena, sentindo o café amargo fugindo pela minha língua e entre os dentes.
– É isso, é o mundo que se afunda – deixou a sanduíche no prato –. Sabes o que é que eu fazia aos domingos, os dezasseis primeiros domingos desde aquilo da Berta?
Ele dizia “aquilo da Berta”, não se alargava mais. “Aquilo da Berta” era o indicativo, um pacto com o interlocutor. Um pacto individual porque nem sempre o interlocutor sabia ao que se referia. E dezasseis domingos? Justamente esse número. Nem mais um nem menos um: dezasseis.
– O que é que fazias?
– Não sabes? – disse abrindo os olhos.
De repente senti-me cansado do assunto. O Salvat ali, mordiscando a sanduíche de lulas à romana, rodeado por colegas de outras secções, colegas que pedem cafés e cervejas e limpam a boca gordurenta com guardanapos de papel. E o Salvat a falar-me sobre “aquilo da Berta” e dando-me conselhos sobre a maneira como me havia de comportar e o que fazer, que caminho tomar. Por onde puxar.
– Não, não o sei.
– Chorar. Chorar. Como estás a ouvir, sim, sim; chorar e chorar.
Não disse nada.
– Chorar durante os dezasseis domingos seguidos? – perguntei.
Afirmou.
– Como uma Madalena – sublinhou –. É autêntico.
– E às segundas-feiras? Às segundas-feiras já não choravas ou quê?
– Às segundas-feiras, não.
– Porquê?
– Porque às segundas-feiras tinha o karaok.
– Karaok – disse olhando pelo espelho do fundo a alopecia imparável de Alonso, da Intervenção, que almoçava ao nosso lado.
O Salvat limpou algumas migalhas que tinha no peito, levantou a mão e fez um sinal de que queria um café. Fazia sempre isto. O polegar e o indicador em paralelo a três centímetros um do outro.
– O karaok – voltava novamente ao mesmo, fazendo deslizar a sua mão pelo meu ombro– é o novo yoga. No século que está a começar, o karaok é uma nova terapia. Pratico-o quatro vezes por semana.
Mas estaria a falar a sério? Podia fazer aquilo a sério? Como um imbecil, em frente do público, com um microfone, interpretando canções nostálgicas. Canções do passado.
– Tu tens que vir esta noite – disse de repente, estendendo a mão para agarrar na chávena –. Tu tens que vir comigo.
– Não sei.
– Não me digas que não sabes.Vens.
– É que eu não sei – protestei.
– Jorge – enfrentou-me: vi-lhe o nariz largo, de búfalo – lembra-te que eu sei muito bem o que tu sentes. Sei muito bem o sabor que tens quando acordas numa cama vazia, a sensação que tens quando estás no duche e quando tomas o pequeno almoço sozinho.
Abanei a cabeça. Nisso, ele estava certo. Tinha-se esquecido acrescentar que eu também chorava, mas não só aos domingos, mas sim todas as manhãs às sete, quando tocava o despertador, quando acendia a luz e passava a mão pela minha direita à procura do corpo de Laura e encontrava então o vazio do dredão e a sua almofada. Chorava em silêncio quando abri a cortina e ainda era de noite. O duche, o pequeno almoço, a minha chávena no lavatório, um olhar pelo vestíbulo e a um espaço da sala antes de fechar com a pasta na mão. Por que levava a pasta? Não me fazia falta para a agenda, a esferográfica e a calculadora. Ele tinha acertado em relação a esse sabor de tristeza infinita que me vinha do céu da boca até ao estômago como se fosse uma brasa.
– E sei mais ainda – disse, rasgando o pacotinho de açúcar e entornando-o na chávena–. Sei o que se sente quando são as oito e meia da noite e já não sabes para onde ir, o que fazer para preencher o ócio, para evitar ir para casa porque a casa cai-te em cima. Ou não é? Ou não é?
Sorria. O cretino gozava com tudo aquilo.Dava-lhe prazer mostrar que sabia o que eu sabia, saber que me doía no meio da alma meter a chave à porta e dar ao interruptor, acender todos os interruptores da casa, ligar a televisão ainda que não lhe prestasse nenhuma atenção, ouvir vozes ao fundo enquanto descongelava uma posta de pescada e umas ervilhas no microondas. Aguentar até ao máximo, fosse o que fosse, programas de merda, filmes, documentários, debates políticos. Resistir até ao momento mais duro: ir apagando cada uma das luzes e percorrer o corredor até ao quarto. Depois, ainda por cima, há os pesadelos, as lagunas de insónia, a angústia que nascia de tudo isso. Acordar a meio da noite e estender a mão para o vazio.
– Não é assim?
Não respondi.
– Não é verdade?
– É verdade – disse, dando uma olhadela ao relógio da caixa registadora –. Há que regressar ao escritório. Bebeu a última gota do seu café e saímos.
– Esta noite vou buscar-te às nove em ponto – disse-me. E como não respondi, atacou de novo.
– Nove em ponto?
– Está bem – disse.
Fomos ao karaok. Era um café na Avenida de Aragón. Nunca lá tinha estado. A verdade é que nunca tinha estado em nenhum dessa série de cafés que, encadeadas, porta com porta, há na Avenida de Aragón.
– É normal – disse-me o Salvat quando lho disse, enquanto arrumávamos o carro –. São cafés para ex. Aqui somos todos ex.
– Ex? –indaguei, ainda que intuísse ao que se referia.
– Por aqui – apontou com os olhos – andam todos os ex da cidade. Os ex que superaram a sua situação.
Pensei imediatamente em Laura. Horrorizou-me a ideia de me encontrar com ela. Há já dois meses que não a via, desde o nosso último e definitivo encontro no escritório do seu advogado.
Fiquei com uma grande ansiedade só de pensar que podia encontrá-la, enquanto me passavam o microfone para as mãos para que cantasse "El gato que está triste y azul".
– Viste alguma vez a Laura por aqui? – interroguei-o, prendendo-lhe o ombro quando tentava sair do carro.
– A tua ex?
Como é que ele me estava a perguntar isso? Quem é que poderia ser a Laura senão ela?
– Claro.
– Não.
Mantive-o agarrado.Voltou a sentar-se.
– Ouve – disse-me – eu sei o que tu sentes.
Outra vez não, por favor. Que não me viesse com aquele que já ia um passo à minha frente.
– Ou seja –começou por dizer– é como se fosses alcoólico e fosses a uma sessão com ex alcoólicos. Nunca viste isso em filmes? A primeira coisa que deves reconhecer é que a Laura não voltará – olhou-me nos olhos, olhou-me e percebi que pintava o cabelo, que usava Grecian 2000 ou algo do género –. Nunca. Laura não voltará. Nunca.
Fiquei com essas quatro palavras. O resto, já que ele continuava a falar, não importava. A única coisa que me chegava eram as palavras Laura, não, voltará e nunca. Como é que era possível que nunca tivesse pensado nisso? Por que é que eu sempre tinha pensado até esse preciso lapso de tempo em que o Salvat mo tinha dito ali, dentro do seu Volkswagen Golf, cinzento, os dois sentados, nesse lapso de tempo preciso em que chuviscava e o vidro do carro se enchia de gotas, por que é que eu sempre tinha pensado que um dia, numa tarde ou a uma qualquer hora imprevista tocaria a campainha de casa, abriria a porta e ali estaria a laura, provavelmente com o cabelo molhado, porque também chovia e se me lançaria ao pescoço e aos lábios como se a nossa separação tivesse sido uma patética alucinação?
– Entendes, Jorge? Entendes?
– Sim – disse sem saber a que respondia.
– Então, vamos a isto –disse-me saindo do carro.
Ao entrar, Salvat começou a cumprimentar pessoas. Conhecia toda a gente. Íamos andando para uma mesa e ele cumprimentava aqui e ali. À quinta apresentação, disse-lhe que não era necessário que me fosse apresentando a toda a gente.
Finalmente, chegámos e sentámo-nos sozinhos. O ambiente estava carregado de fumo. Tínhamo-nos sentado na única mesa livre. Seríamos umas cinquenta ou sessenta pessoas.
– O que é que tomas? – perguntou-me, tirando o seu telemóvel e desligando-o.
Aproximava-se de nós um empregado de mesa. Ouvia-se música, mas não estava ninguém a cantar. Na diagonal reparei num écran iluminado.
– Um café.
– Um café? – gozou –. Olha, Jorge...
– O mesmo que tu – interrompi-o.
– Assim está melhor – dirigiu-se ao empregado de mesa: – duas cubas libres de rum com um pouco de genebra. Mas que seja Larios. Depois puxou por um maço de cigarros. Alguém lhe gritou à sua esquerda.
– Desculpa – disse-me, levantando-se e indo ao encontro de uma mulher loira.
Entretive-me a olhar. Ex, pensei. A verdade é que tinha pinta disso. Vestia de uma maneira demasiado jovem para os anos que aparentava. De trinta a cinquenta e quatro, de certeza. O meu aspecto começava a moldar-se ao meu estado actual de ex? Se alguém me olhasse de frente, talvez estivesse a pensar no mesmo que eu pensava dela? Ex. Um ex mais na lista, no grupo daqueles ex que ali havia. As pessoas falavam em voz alta, fumavam e riam-se. Eu tinha vontade de me ir embora. Salvat regressou.
– Desculpa. Não a conheces?
Olhei por detrás dele. Falava com outro ex.
– Não. Deveria conhecê-la?
– É a Alvarez, da Repartição Pública.
Olhei de novo.
– Aquela? Aquela é a Maria Alvarez?
Disse que sim.
– Mas não era morena? – disse.
– Agora é ex.
– E?
– Bolas, é outra vida – aproximou-se, vinha sermão –.Tens que te mexer. Se não, sabes o que é que te vai acontecer?
Não respondi.
– Vais enrugar-te como uma passa e em dois meses estás num farrapo. Exactamente assim. Nestas coisas há que ser realista com o doente – i nclinou-se para a frente: tu estás doente, rapaz.
– Eu?
– De melancolia.
O empregado de mesa trouxe-nos as bebidas. Ia para pagar, mas o Salvat não no permitiu.
– Esta rodada é minha –disse-me, puxando por uma nota.
As luzes flutuaram. As pessoas gritaram. Era o sinal. O sinal. Em algumas mesas levantavam as mãos.Vi que outro empregado tomava nota, Salvat levantou a sua.
– O que é que se passa? – disse.
– É a série para cantar.
Tentei baixar-lhe o braço.
– Eu não canto – disse-lhe muito sério.
Riu-se.
– Salvat, olha que eu não canto, é o que te estou a dizer.
O empregado fez-lhe um sinal, indicou-lhe o número três com os dedos. Contava connosco.
– Temos o três.
– Eu não canto.
– Lembra-te que isto é terapia – disse, sorvendo do seu copo alongado.
Houve outra mudança de luzes e fez-se silêncio. No écran apareceu o nome de Juan Manuel Serrat e o título "Mediterráneo". De uma das mesas saiu uma voz de homem. Procurei com o olhar. Alguém seguia a letra da canção de Serrat, modulando-a, enganando-se por vezes. Imitando-a. Até que chegou ao fim e as pessoas aplaudiram. As pessoas aplaudiam e o tipo levantava-se e agachava-se, agradecia, juntava as mãos sobre o peito. Actuava. Via-se, sem dúvida, num palco. Não era só isso, pensava mesmo que era o próprio Serrat.
– Aquele tipo – disse-me o Salvat, lançando o fumo como se assobiasse– é hoje um bom bocado mais feliz que ontem. Isto do karaok é uma grande terapia, Jorge.
Disse que sim e bebi do meu copo. Voltei a olhar para o sucedâneo de Serrat. Estava acompanhado por outro que lhe dava palmadinhas nas costas. Também olhei para o corredor. A coisa tinha acabado de começar, mas eu não pensava ir fazer figura ridícula. Se fosse necessário simularia, inclusive, um desmaio, mas eu não iria cantar perante aquela concentração de ex.
O seguinte foi uma mulher, já entrada nos anos, a menos de cinco metros de nós. Para mim, em vez de ser uma ex, era simplesmente uma viúva. Ou uma viúva ex, mas dava a impressão que estava muito à vontade. Interpretou uma canção de Mecano. Meu Deus, que patético. Chamava-me a atenção como o Salvat permanecia muito atento. Como estava calado e respeitador enquanto a mulher fazia entoar a sua voz e de dez em dez ou de doze em doze segundos limpava a comissura dos lábios com um lenço cor de rosa. Quando faltava pouco para acabar, Salvat disse-me que me preparasse, que nós éramos os que estávamos a seguir.
– Eu não.
– Estou a tratar da tua vida – sussurrou-me –. E de borla.
– Salvat, eu não canto – disse elevando um pouco a voz.
Voltaram-se de algumas mesas. Alguém nos pediu silêncio. Salvat desculpou-se com uma careta e piscou-me o olho. Sem pensar duas vezes e antes que a mulher acabasse, levantei-me com o casaco na mão, voltei-me para o Salvat, sem dar-lhe tempo para reagir e disse-lhe que ia à casa de banho e que voltava logo a seguir. Percorri o corredor por entre as mesas, passando pelo fumo de dezenas de cigarros e pelo fundo monótono da canção.
– A casa de banho, por favor? – perguntei ao empregado de mesa.
– Sempre em frente à direita. Mas seja rápido que você está a seguir.
Percebi que era ele que levava a conta. Seria capaz de dizer ao microfone que era preciso esperar porque o cantor seguinte estava na casa de banho? Sorri-lhe com um tique e dirigi-me para o sítio que me tinha indicado. Entrei e fechei-me. Olhei-me ao espelho. O que é que estava a fazer? O que é que estava a fazer naquele karaok e o que é que fazia metido naquela casa de banho? Trinta e dois anos, cinco de casado e seis meses de divorciado. Porquê fugir e fugir de quê? Tinha que me ir embora, sem mais, sem me importar se aborrecia o Salvat, mas fugir não. Agradecia-lhe o seu interesse, a sua dedicação, a sua tentativa para me tirar de casa e tudo isso, mas nada mais. Colei a orelha à porta e deixei de respirar, queria ouvir o que se passava lá fora, no palco. Não percebia nada. Não ouvia nada. Estariam à minha espera? O empregado de mesa teria dito certamente que dentro de pouco tempo eu estaria ali? Abri uma nesga da porta e observei. O corredor continuava escuro, não se via nenhum movimento. Espreitei. O empregado de mesa, de braços cruzados, olhava para as mesas. Não se ouvia música. Estavam à minha espera. Não tive qualquer dúvida. Estavam à minha espera. Imaginei o Salvat a aguentar o microfone, dizendo algumas palavras, apresentando a minha imediata actuação. Talvez contando algumas graças de divórcios, de adultérios, anedotas de ex. Decidi-me a sair para o corredor. Fui nas pontas dos pés e em vez de virar para o interior (de facto, Salvat falava, não soube o que dizia, mas falava ao microfone perante o silêncio expectante das pessoas, dir-lhes-ia que tivessem paciência comigo, que era um ex recente, ainda afectado?), dirigi-me para a porta e encontrei-me na rua. Tinha deixado de chover. Surpreendentemente o céu tinha-se enchido de estrelas. Era Lua nova. Uma imensa Lua nova. Ainda caíam gotas das árvores. Respirei fundo e soube-me bem. Caminhei lentamente em direcção a minha casa, sem me cruzar com ninguém, recriando-me no que ia encontrando, nas luzes das janelas dos prédios, na vida que haveria ali dentro. Um ou outro táxi, um ou outro carro, um autocarro que se dirigia para o seu retiro. Os cafés por onde passava viam-se replectos de gente através dos vidros embaciados. A minha casa não era longe dali. Em quinze minutos já estaria nela, à porta, no elevador, no patamar, metendo a chave, entrando sem pensar nisso, descalçando-me, sentindo o frio do mármore na planta dos pés, sem sentir o peso de Laura, da sua ausência. Sem me questionar, como o tinha feito nos últimos seis meses, o que estaria a Laura fazer naquele mesmo instante.
Miguel Herráez, ELS PLECS DEL MAGNÀNIM, Valencia, 2004

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