sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Acreditar

Na conta certa
por Nicolau Santos

Para não dizer que não falei de flores

Em nome do que construímos nos últimos 35 anos, temos de lutar para enfrentar esta crise e não nos deixarmos abater pelas adversidades.

Em nome do grande sucesso que foi termos conseguido reduzir a taxa de mortalidade infantil de 80 por mil, uma das piores do mundo, para 4 por mil, a terceira mais baixa da Europa e a quarta menor a nível mundial. E de aumentar a esperança de vida de 60 anos para os homens e 65 para as mulheres, para 74 e 80 anos, respectivamente. E de em apenas quatro anos termos construído o terceiro mais importante registo europeu de dadores de medula óssea, indispensável no combate às doenças leucémicas, um acervo só ultrapassado pela Grã-Bretanha e Alemanha.
Em nome do que de muito bom inventámos, criámos ou desenvolvemos, como a Via Verde, o sistema de pagamentos bancários Multibanco, ou o cartão pré-pago para os telemóveis, uma inovação a nível mundial. Em nome de todas as empresas que são líderes mundiais: na tecnologia de transformadores de energia (Efacec), nas máquinas de corte por jacto de água (CEI - Companhia de Equipamentos Industriais), nos painéis derivados de madeira (Sonae Indústria), no papel de escritório de alta qualidade (Navigator, da Portucel), na construção de caiaques (M.A.R. Kayaks), no software de identificação (Number Five), no sector de cortiça e transformados (Corticeira Amorim), nas soluções biométricas (Master Guardian), na tecnologia para calçado (90 milhões de pessoas em todo o mundo calçam sapatos portugueses), no software para contact centres (Altitude Software), no aproveitamento da energia das ondas...
Mas outros sectores há onde empresas portuguesas se encontram entre as primeiras: na produção de feltros para chapéu (Fepsa), na bilha de gás mais premiada do mundo (Pluma, da Galp), na inovação no papel higiénico (Renova), nos textêis lar (26 milhões de americanos dormem em lençóis portugueses), nas embalagens plásticas (Logoplaste, líder europeu), na produção de energia eólica (EDP Renováveis), nos moldes de plástico, no lançamento do primeiro medicamento de raíz portuguesa, um anti-epiléptico (Bial), no desenvolvimento de integração para o Espaço Schengen (Critical Software)...
Em nome do enorme esforço que o país tem feito em Investigação e Desenvolvimento nos últimos anos - já investimos mais em I&D que  a Grécia e a Itália e estamos quase ao nível de Espanha e muito perto da Irlanda; em 2007, pela primeira vez, as empresas investiram mais que o Estado em I&D; há cinco investigadores por cada mil activos (média da UE: 5,5); estão a doutorar-se 1 500 portugueses por ano e cerca de 2 000 recebem bolsas de doutoramento.
Em nome da transformação que conseguimos em Portugal - de um país rural, pobre, atrasado, inculto, machista, fechado, num país plural, aberto, moderno, miscigenado, com grande diversidade étnica, religiosa e de costumes, onde se vive incomparavelmente melhor, onde as mulheres têm um papel já maioritário em muitas instâncias da vida do país, onde houve uma enorme democratização do ensino, a criação de um razoável sistema de segurança social e de cuidadados de saúde, além de uma espectacular melhoria das vias rodoviárias.
É em nome de tudo isso que não podemos baixar os braços. Temos de encontrar soluções inovadoras e solidárias para enfrentar o terrível tsunami que se abateu sobre a economia mundial e que também nos atinge de forma violenta - e deixar um legado de prosperidade e apego aos valores da liberdade e democracia aos nossos filhos e netos.
Ah, e porquê o título desta crónica? Quem conhece a música sabe do que falo.

in, revista MONTEPIO, Primavera de 2009

Concordo plenamente com o autor do artigo. Vamos acreditar mais em nós, nas nossas potencialidades -grandes ou pequenas-, pois não foi em vão que demos novos mundos ao Mundo.

Sem comentários:

Enviar um comentário