sábado, 11 de fevereiro de 2012

Fernando Pessoa

Mar Português


Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!


Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma nao é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa, in Mensagem
    AUTOPSICOGRAFIA
    O poeta é um fingidor.
    Finge tão completamente 
    Que chega a fingir que é dor 
    A dor que deveras sente. 
    E os que lêem o que escreve,  
    Na dor lida sentem bem,  
    Não as duas que ele teve,  
    Mas só a que eles não têm. 
    E assim nas calhas da roda  
    Gira, a entreter a razão,  
    Esse comboio de corda  
    Que se chama coração.
    Fernando Pessoa

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