quarta-feira, 29 de junho de 2011

O TREMA -¨-

Despedida do TREMA
Estou indo embora. Não há mais lugar para mim. Eu sou o trema.
Você pode nunca ter reparado em mim, mas eu estava sempre ali, na Anhangüera, nos aqüíferos, nas lingüiças e seus trocadilhos, por mais de quatrocentos e cinqüenta anos.
Mas os tempos mudaram.
Inventaram uma tal de reforma ortográfica e eu simplesmente estou fora.
Fui expulso para sempre do dicionário.
Seus ingratos!
Isso é uma delinqüência de lingüistas grandiloqüentes!...
O resto dos pontos e o alfabeto não me deram o menor apoio...
A letra U disse-se aliviada porque vou finalmente sair de cima dela.
O dois pontos disse que eu sou um preguiçoso que trabalha deitado enquanto ele fica em pé.
Até o cedilha foi a favor da minha expulsão, aquele C cara de pau que fica passando-se por S e nunca tem coragem de iniciar uma palavra.
E também aquele obeso do O e o anoréxico do I.
Desesperado, tentei chamar o ponto final para trabalharmos juntos, fazendo um bico de reticências, mas ele negou, encerrando sempre, rapidamente, todas as discussões.
Será que se me fizer um penteado à moicano posso fazer-me passar por aspas?....
A verdade é que estou fora de moda.
Quem está na moda são os estrangeiros, é o K e o W, "Kkk" p'ra cá, "www" p'ra lá.
Até o jogo da velha, a quem nunca ninguém ligou, virou celebridade nesse tal Twitter, que aliás, deveria chamar-se TÜITER.
Chega de argüição, mas estejam certos, seus moderninhos: haverá conseqüências! Chega de piadinhas, dizendo que estou "tremendo" de medo.
Tudo bem, vou-me embora da língua portuguesa. Foi bom enquanto durou.
Vou para o alemão, lá eles adoram os tremas e um dia vocês sentirão saudades. E não vão agüentar!...
Ver-nos-emos nos livros antigos. Saio da língua para entrar na história.
Adeus,
TREMA

segunda-feira, 27 de junho de 2011

BULLYING

A menina a quem chamas gorda, passa os dias sem comer para perder peso.
O menino a quem chamas burro, quem sabe talvez tenha problemas de aprendizagem.
A menina a quem acabaste de chamar feia, passa horas a arranjar-se para que pessoas como tu a aceitem.
O menino a quem provocas e com quem gozas na escola, pode receber maus tratos em casa e tu só estás a contribuir para destruir a sua auto-estima.
Pensa nisto, sê solidário.

Abaixo o BULLYING!!!

quinta-feira, 23 de junho de 2011

CRISE?!?


Eça de Queirós sempre tão actual!!!
“…Nós estamos num estado comparável sómente à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesma trapalhada económica, mesmo abaixamento de caracteres, mesma decadência de espírito.
Nos livros estrangeiros, nas revistas quando se fala num país caótico e que pela sua decadência progressiva, poderá …vir a ser riscado do mapa da Europa, citam-se a par, a Grécia e Portugal.”
É fantástico, não é? Não há cura possível...

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Ser português...

SONETO

Tu foste a luz que eu não soube merecer,

O remorso que ainda mora na consciência,

A saudade que nunca aprendeu a viver

No vazio que me deixou a tua ausência

.

Tu foste uma fugaz passagem de ilusão,

Uma miragem no deserto de uma vida
.
Tu foste chama, foste amor, foste paixão

Que adormeceu no adeus de uma partida.



E se lá, onde moram os sonhos adiados

Ainda houver memórias acordadas
,
Talvez por elas se consiga perceber



As razões de tanto amor desencontrado,

As verdades que não foram encaradas

E as palavras que ficaram por dizer.


Xico Mendes (poeta barranquenho)

terça-feira, 7 de junho de 2011

Acordo ortográfico

Omens sem H
Por Nuno Pacheco, jornalista do "Público", 06 Junho 2011





Espantam-se? Não se espantem. Lá chegaremos. No Brasil, pelo menos, já se escreve "umidade". Para facilitar? Não parece. A Bahia, felizmente, mantém orgulhosa o seu H (sem o qual seria uma baía qualquer), Itamar Assumpção ainda não perdeu o P e até Adriana Calcanhotto duplicou o T do nome porque fica bonito e porque sim.
Isto de tirar e pôr letras não é bem como fazer lego, embora pareça. Há uma poética na grafia que pode estragar-se com demasiadas lavagens a seco. Por exemplo: no Brasil há dois diários que ostentam no título esta antiguidade: Jornal do Commercio. Com duplo M, como o genial Drummond. Datam ambos dos anos 1820 e não actualizaram o nome até hoje. Comércio vem do latim commercium e na primeira vaga simplificadora perdeu, como se sabe, um M. Nivelando por baixo, temendo talvez que o povo ignaro não conseguisse nunca escrever como a minoria culta, a língua portuguesa foi perdendo parte das suas raízes latinas. Outras línguas, obviamente atrasadas, viraram a cara à modernização. É por isso que, hoje em dia, idiomas tão medievais quanto o inglês ou o francês consagram pharmacy e pharmacie (do grego pharmakeia e do latim pharmacïa) em lugar de farmácia; ou commerce em vez de comércio. O português tem andado, assim, satisfeito, a "limpar" acentos e consoantes espúrias. Até à lavagem de 1990, a mais recente, que permite até ao mais analfabeto dos analfabetos escrever sem nenhum medo de errar. Até porque, felicidade suprema, pode errar que ninguém nota. "É positivo para as crianças", diz o iluminado Bechara, uma das inteligências que empunha, feliz, o facho do Acordo Ortográfico. É verdade, as crianças, como ninguém se lembrou delas? O que passarão as pobres crianças inglesas, francesas, holandesas, alemãs, italianas, espanholas, em países onde há tantas consoantes duplas, tremas e hífens? A escrever summer, bibliographie, tappezzería, damnificar, mitteleuropäischen? Já viram o que é ter de escrever Abschnitt für sonnenschirme nas praias em vez de "zona de chapéus de sol"? Por isso é que nesses países com línguas tão complicadas (já para não falar na China, no Japão ou nas Arábias, valha-nos Deus) as crianças sofrem tanto para escrever nas línguas maternas. Portugal, lavador-mor de grafias antigas, dá agora primazia à fonética, pois, disse-o um dia outra das inteligências pró-Acordo, "a oralidade precede a escrita". Se é assim, tirem o H a homem ou a humanidade que não faz falta nenhuma. E escrevam Oliúde quando falarem de cinema. A etimologia foi uma invenção de loucos, tornemo-nos compulsivamente fonéticos.
Mas há mais: sabem que acabou o café-da-manhã? Agora é café da manhã. Pois é, as palavras compostas por justaposição (com hífens) são outro estorvo. Por isso os "acordistas" advogam cor de rosa (sem hífens) em vez de cor-de-rosa. Mas não pensaram, ó míseros, que há rosas de várias cores? Vermelhas? Amarelas? Brancas? Até cu-de-judas deixou, para eles, de ser lugar remoto para ser o cu do próprio Judas, com caixa alta, assim mesmo. Só omens sem H podem ter inventado isto, é garantido.