quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Palavras como pedras...

As ruas por onde não nos deixam passar...
Sigmund Freud distinguiu uma vez o luto da melancolia. Luto, explicou, é a dor, a reacção natural à perda de um ser amado ou de algo mais abstracto mas equivalente, como a liberdade, a pátria, talvez um sistema social que nos parecia razoavelmente justo e no qual nos sentíamos confortáveis ou, inclusivamente, um jornal ou uma revista a que estávamos unidos.
A melancolia é quando essa dor é acompanhada por um sentimento de culpa, quando se traduz em críticas e acusações a nós próprios. Então, o estado natural do luto converte-se numa doença mórbida.
Quando nos desterram de um mundo que amávamos, é importante atravessar o luto, a dor e a tristeza, mas também saber que chegará o momento em que encontraremos onde depositar de novo os nossos afectos, o nosso empenho e a nossa esperança. Que é importante fugir da melancolia que pretende afundar-nos na sensação de que somos “indignos de estima, incapazes de qualquer obra valiosa”. Uma das características mais singulares da melancolia, explicava o grande Freud, é o medo da ruína e do empobrecimento.
Assim nos têm. Assim estamos nos países do Sul da Europa, empurrados para a melancolia, expulsos de um mundo que acreditávamos ser nosso e que desaparece debaixo dos nossos pés, enquanto tentam convencer-nos de que fomos nós que provocámos essa dor e essa tristeza com a nossa falta de senso. Empenham-se em ver-nos caídos no medo da ruína e do empobrecimento sem esperança, tentam que aceitemos que esse é o nosso destino.
Outro professor judeu menos famoso, que se converteu, sem o pretender, num jornalista de rara percepção, Victor Klemperer, dedicou-se a observar e a anotar em vários volumes de um diário todo o processo de desumanização que o rodeou na Alemanha da II Guerra Mundial. Klemperer não podia acreditar no que estava a ver e perguntava-se se devia duvidar do seu raciocínio em vez de questionar a realidade.
Quando o que se passa à volta de alguém é tão brutal, parece, teria dito talvez o professor Freud, que é uma reacção normal acabar por censurar não a realidade, mas sim o nosso próprio juízo moral. Não pode estar a acontecer o que está a acontecer. Não acredito que esteja a viver o que estou a viver. Tudo isto é muito mais normal do que creio, deve ser mais lógico e razoável, engano-me ao censurá-lo tão radicalmente.Mas não. Ninguém está a ficar louco. É a realidade que supera a imaginação e é a realidade que devemos censurar.
Os gregos doentes de cancro que não podem receber tratamento porque perderam o emprego e agonizam fora do sistema de saúde estão aí. Os hospitais gregos onde já não chega uma potente droga anticancerígena porque a empresa alemã que a fabrica, farta de não receber o pagamento, decidiu interromper o fornecimento e aconselhar os doentes a “irem às farmácias comprá-la com o seu dinheiro”, estão aí. E está aí a obrigação do Governo grego de pagar, por cima de tudo e antes que tudo, a dívida que contraiu junto dos bancos internacionais.
Está aí a ameaça de uma recessão prolongada ao longo dos próximos anos. A Comissão Europeia não tem a intenção de nos enganar. Anuncia-nos que vem aí outro longo ano com péssimos augúrios, em que padeceremos de novos cortes e ajustes. Um ano em que mais gregos sofrerão o inimaginável.
Façamos luto por esse mundo do qual nos expulsam, mas seria bom que sacudíssemos a melancolia quanto antes. A realidade é a Grécia, ou os suicídios de quem não suporta a humilhação de ser despejado de casa, essa é a realidade como eram reais as ruas por onde Victor Klemperer estava proibido de passear. Está a passar-se o que estamos a ver. E não é inconcebível. É intolerável. Isto é o que temos de compreender quanto antes. Que algumas das coisas que acontecem diante dos nossos assombrados olhos são ultrajantes.
 Soledad Gallego-Díaz, El País, 11/11/2012

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Verdade?!?, pois é...

O primeiro-ministro anunciou que íamos empobrecer, com aquele desígnio de falar "verdade", que consiste na banalização do mal, para que nos resignemos mais suavemente. Ao lado, uma espécie de contabilista a nível nacional diz-nos, como é hábito nos contabilistas, que as contas são difíceis de perceber, mas que os números são crus. Os agiotas batem à porta e eles afinal até são amigos dos agiotas. Que não tivéssemos caído na asneira de empenhar os brincos, os anéis e as pulseiras para comprar a máquina de lavar alemã. E agora as jóias não valem nada. Mas o vendedor prometeu-nos que... Não interessa.
Vamos empobrecer. Já vivi num país assim. Um país onde os "remediados" só compravam fruta para as crianças e os pomares estavam rodeados de muros encimados por vidros de garrafa partidos, onde as crianças mais pobres se espetavam, se tentassem ir às árvores. Um país onde se ia ao talho comprar um bife que se pedia "mais tenrinho" para os mais pequenos, onde convinha que o peixe não cheirasse "a fénico". Não, não era a "alimentação mediterrânica", nos meios industriais e no interior isolado, era a sobrevivência.
Na terra onde nasci, os operários corticeiros, quando adoeciam ou deixavam de trabalhar vinham para a rua pedir esmola (como é que vão fazer agora os desempregados de "longa" duração, ou seja, ao fim de um ano e meio?). Nessa mesma terra deambulavam também pela rua os operários e operárias que o sempre branqueado Alfredo da Silva e seus descendentes punham na rua nos "balões" ("Olha, hoje houve um 'balão' na Cuf, coitados!"). Nesse país, os pobres espreitavam pelos portões da quinta dos Patiño e de outros, para ver "como é que elas iam vestidas".
Nesse país morriam muitos recém-nascidos e muitas mães durante o parto e após o parto. Mas havia a "obra das Mães" e fazia-se anualmente "o berço" nos liceus femininos onde se colocavam camisinhas, casaquinhos e demais enxoval, com laçarotes, tules e rendas e o mais premiado e os outros eram entregues a famílias pobres bem- comportadas (o que incluía, é óbvio, casamento pela Igreja).
Na terra onde nasci e vivi, o hospital estava entregue à Misericórdia. Nesse, como em todos os das Misericórdias, o provedor decidia em absoluto os desígnios do hospital. Era um senhor rural e arcaico, vestido de samarra, evidentemente não médico, que escolhia no catálogo os aparelhos de fisioterapia, contratava as religiosas e os médicos, atendia os pedidos dos administrativos ("Ó senhor provedor, preciso de comprar sapatos para o meu filho"). As pessoas iam à "Caixa", que dependia do regime de trabalho (ainda hoje quase 40 anos depois muitos pensam que é assim), iam aos hospitais e pagavam de acordo com o escalão. E tudo dependia da Assistência. O nome diz tudo. Andavam desdentadas, os abcessos dentários transformavam-se em grandes massas destinadas a operação e a serem focos de septicemia, as listas de cirurgia eram arbitrárias. As enfermarias dos hospitais estavam cheias de doentes com cirroses provocadas por muito vinho e pouca proteína. E generalizadamente o vinho era barato e uma "boa zurrapa".
E todos por todo o lado pediam "um jeitinho", "um empenhozinho", "um padrinho", "depois dou-lhe qualquer coisinha", "olhe que no Natal não me esqueço de si" e procuravam "conhecer lá alguém".
Na província, alguns, poucos, tinham acesso às primeiras letras (e últimas) através de regentes escolares, que elas próprias só tinham a quarta classe. Também na província não havia livrarias (abençoadas bibliotecas itinerantes da Gulbenkian), nem teatro, nem cinema.
Aos meninos e meninas dos poucos liceus (aquilo é que eram elites!) era recomendado não se darem com os das escolas técnicas. E a uma rapariga do liceu caía muito mal namorar alguém dessa outra casta. Para tratar uma mulher havia um léxico hierárquico: você, ó; tiazinha; senhora (Maria); dona; senhora dona e... supremo desígnio - Madame.
Os funcionários públicos eram tratados depreciativamente por "mangas-de-alpaca" porque usavam duas meias mangas com elásticos no punho e no cotovelo a proteger as mangas do casaco.
Eu vivi nesse país e não gostei. E com tudo isto, só falei de pobreza, não falei de ditadura. É que uma casa bem com a outra. A pobreza generalizada e prolongada necessita de ditadura. Seja em África, seja na América Latina dos anos 60 e 70 do século XX, seja na China, seja na Birmânia, seja em Portugal.
Texto a circular pela "net", (supostamente) de Isabel do Carmo

sábado, 10 de novembro de 2012

Isto sim, é caridadezinha...

Os Pobrezinhos
Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida. Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:
- Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da minha Teresinha. 
O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente». No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, uma bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:
- Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.
Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto (- Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro) de forma de deletéria e irresponsável. O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico - Agora veja lá, não gaste tudo em vinho o atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:
- Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu.
 Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros - O que é que o menino quer, esta gente é assim e eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano. Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse - Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão. Na minha ideia o padre Cruz e a Saõzinha eram casados, tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado «Almanaque da Sãozinha», se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos a incenso. Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis.
António Lobo Antunes, Livro de crónicas (livro onde foram reunidas as crónicas saídas na Pública - suplemento do jornal Público - e na revista Visão)

domingo, 4 de novembro de 2012

Desabafo...


Na bicha do supermercado, o caixa diz a uma senhora idosa:
- A senhora deveria trazer as suas próprias sacolas para as compras, uma vez que os sacos de plástico não são amigos do ambiente.
A senhora pediu desculpa e disse:
- Não havia essa onda verde no meu tempo.
O empregado respondeu:
- Esse é exactamente o nosso problema hoje, minha senhora. A sua geração não se preocupou o suficiente com o meio ambiente.
- Você devia estar certo, responde a velha senhora. A minha geração não se preocupou adequadamente com o ambiente, mas...
Naquela época, as garrafas de leite, de refrigerante e cerveja eram devolvidas à loja que as enviava de volta para a fábrica, onde eram lavadas e esterilizadas antes de cada reutilização.
Mas realmente não nos preocupámos com o ambiente no nosso tempo…
Subíamos as escadas, porque não havia escadas rolantes nas lojas e nos escritórios. Caminhávamos até ao mercado, em vez de usar o nosso carro de 300 cavalos de potência a cada vez que precisávamos andar dois quarteirões.
Mas você está certo, nós não nos preocupávamos com o ambiente...
Até então, as fraldas dos bébés eram lavadas, porque não havia fraldas descartáveis. A secagem da roupa era feita aproveitando a energia solar e eólica, não nestas máquinas bamboleantes de 220 volts. Os meninos pequenos usavam as roupas que tinham sido dos seus irmãos mais velhos, e não roupas sempre novas.
Mas é verdade, não havia preocupação com o ambiente, naqueles tempos...
Naquela época tínhamos somente uma TV ou rádio em casa, e não uma TV em cada quarto. E a TV tinha um ecrán do tamanho de um lenço, não do tamanho de um estádio; que depois será descartado como? Na cozinha, tínhamos que bater tudo com as mãos porque não havia máquinas eléctricas, que fazem tudo por nós. Quando embalávamos algo um pouco frágil para enviar pelo correio, usávamos papel de jornal para protegê-lo, não plástico que dura cinco séculos para começar a degradar-se.
Naqueles tempos não se usava um motor a gasolina para cortar a relva, era utilizado um cortador de relva que exigia músculos. O exercício era extraordinário, e não precisávamos ir ao ginásio e usar passadeiras que também funcionam a eletricidade.
Mas você tem razão, não havia naquela época preocupação com o ambiente...
Bebíamos directamente da torneira, quando estávamos com sede, em vez de usar copos e garrafas de  plástico que agora lotam os oceanos. Recarregávamos as canetas com tinta tantas vezes quanto fosse necessário em vez de comprar outra. Afiávamos as navalhas, em vez de as deitar fora só porque a lâmina ficou sem corte. Usávamos lâminas recarregáveis, em vez dessas maquinetas descartáveis, de usar e deitar fora.
Naqueles tempos, as pessoas andavam mais de autocarro ou de eléctrico e os meninos iam nas suas bicicletas ou a pé para a escola, em vez de usar a mãe como um serviço de táxi. Tínhamos só uma tomada em cada quarto, e não um quadro de tomadas em cada parede para alimentar uma dúzia de aparelhos. E nós não precisávamos de um GPS para receber sinais de satélites a milhas de distância no espaço, só para encontrar a pizzaria mais próxima.
Vendo bem, inconscientemente, havia realmente uma "onda verde" naquela época… 
Jovem, é curioso que a sua geração fale agora tanto em reciclagem e em defesa do "meio ambiente"!!!
Texto de autor desconhecido a circular por "e-mail" (adaptado)

sábado, 3 de novembro de 2012

Prato de arroz ou flores...

Reflexão - que lição!?!

"Um sujeito estava a colocar flores no túmulo de um familiar, quando vê um indivíduo chinês colocando um prato de arroz na lápide ao lado.
Dirige-se a ele e pergunta-lhe:
- Desculpe lá, mas o senhor acha que o seu defunto virá comer o arroz?
E o chinês responde-lhe:
- Sim, geralmente à hora em que o seu vem cheirar as flores."
Respeitar as opções alheias é uma das maiores virtudes do ser humano.
As pessoas são diferentes, agem e pensam diferentemente, por isso não se deve julgar, mas sim compreender!!!
Anedota a circular por "e-mail" (texto adapatado)